terça-feira, 26 de novembro de 2013

O Tédio diante da verdade

"Hoje, a "verdade" se proclama visível. O Google tem todos os sentimentos catalogados, mas falta-nos sentir o gosto de alguma coisa vaga que nunca se atinge. Qual seria a emoção de um "gamer" ao ler: "Enquanto os fundos públicos são desperdiçados em caridade, um sino de fogo róseo soa entre as nuvens"? O jovem teria um tédio infinito. Ninguém quer atingir mais nada. Está tudo aí, classificado."

Arnaldo Jabor
(Em sua coluna de hoje no Estadão)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A redundância dos algoritmos burros

"Pessoas não são veículos para a execução de algoritmos, da mesma forma que não são cavalos de espíritos de religiões primitivas. Não se sabe direito como o cérebro funciona e sabe-se que os genes estão mais para registros do que deu certo do que para ordens inquestionáveis. Formas algorítmicas de administrar, controlar, treinar e remunerar o homem o desumanizam, tirando dele o que tem de mais precioso: sua capacidade de pensar."

Luli Radfahrer
(em sua coluna de hoje na Folha Online)

domingo, 24 de novembro de 2013

Palpiteiros de domingo

"Sabemos todos que a História muda segundo quem a observa. Para os contemporâneos dos fatos, a importância que lhes é dada frequentemente é bem distinta da que terá dentro de poucas décadas. O que era invisível aparece, o que não tinha importância a adquire, o que era básico se torna acessório, quem era tratado como gênio ou esperança nem mais é lembrado. E o anedotário de todos os povos armazena uma fartura de previsões hoje estapafúrdias, vaticínios que se demonstraram asneiras descomunais, afirmações definitivas cuja validade mal chegou a aniversariar. Mas isto não impede que continue irresistível a tentação de dar palpites sobre o chamado veredito da História, é uma espécie de jogo que pode até ser divertido, assim para um domingo ocioso, sem nada melhor para fazer."

João Ubaldo Ribeiro
Em sua coluna de hoje no Estadão

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A favor do tédio

"O primeiro dever dos jovens é o de se tornar velhos"

Benedetto Croce
(como citado por Calligaris em sua coluna de hoje)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Curta-me!

"No círculo vicioso da inveja, a experiência efetiva é irrelevante; não é com tal ou tal outra vida e história concretas que se sonha: sonha-se ser o que os outros sonham. A inveja é, por assim dizer, uma emoção abstrata: o privilégio não precisa dar acesso a uma fruição especial da vida (sensual ou espiritual, tanto faz), ele só precisa suscitar inveja. Ou seja, privilégio não é o que faço ou o que acontece de extraordinário em minha vida, mas o olhar invejoso dos outros.(...)   O Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social. Nele, quase todos mentem, mas circula uma verdade de nossa cultura: o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar." 

 Contardo Calligaris
(em sua coluna na folha desta quinta-feira)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O rei na barriga de cada brasileiro

"O ministro Joaquim Barbosa tem sido tratado como um Drácula brasileiro por dizer o que pensa e sente. Poi, no Brasil, eis o meu primeiro palpite, somos todos treinados a dizer o que não pensamos. Seja porque seríamos presos por corrupção ou tomados como desmanchadores de prazer; seja porque faz parte de nossa persistente camada aristocrática não confrontar o outro com a tal "franqueza rude" a ser reprimida por sinalizar não o desrespeito, mas um igualitarismo a ser evitado justamente porque nivela e subverte hierarquias. Somos a sociedade da casa e da rua. Em casa, somos reacionários e sinceros; na rua viramos revolucionários e ninjas - a cara encoberta. Somos imperiais em casa, quando se trata das nossas filhas e fervorosos feministas em público, com as "meninas" dos outros. Observo que quando há hierarquia, não há debate nem discórdias; já o bate-boca é igualitário e nivelador. Por isso, ele é execrado entre nós, alérgicos a todas as igualdades. Discutir é igualar, de modo que as reações de Joaquim Barbosa assustam e surpreendem. Afinal, ele é um ministro. Como pode se permitir tamanha sinceridade? O superior não deveria discutir, mas ignorar e suprimir." 

 Roberto DaMatta
(Em sua coluna desta quarta-feira no Estadão)

domingo, 18 de agosto de 2013

Essa rapadura de país

"Diante dessa sarabanda agitada e da luta para não largar o osso, lembro-me de quando eu era menino em Itaparica, punha um pedaço de rapadura no chão e ficava esperando formigas brotarem do nada, várias espécies que só tinham em comum gostar de açúcar. Umas ruças, grandalhonas, eram minhas favoritas, porque ficavam frenéticas e não paravam um segundo, para lá e para cá, em cima da rapadura, apesar de que, volta e meia, uma parecia se saciar e caía imóvel - dura para trás, dir-se-ia. Eu não sabia, mas estava vendo o Brasil, só que as formigas não se saciam e quem cai para trás somos nós."

João Ubaldo Ribeiro
(Em sua coluna no Estadão deste domingo)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O mito da ciência

"Meu amigo, não existe conhecimento puro. É indiscutível a legitimidade da concepção eclesiástica da ciência, que se pode resumir nas palavras de Santo Agostinho: "Creio para que possa conhecer". A fé é o órgão do conhecimento, e o intelecto é secundário. A sua ciência incondicional não passa de um mito. Há sempre uma fé, um conceito do mundo, uma ideia, numa palavra: uma vontade, e cabe à razão explicá-la e comprová-la. Em todos os casos, chega-se ao 'Quod erat demonstrandum'. "

Thomas Mann
(Em "A Montanha Mágica", Herbert Caro (trad.), Círculo do livro 1952, pg 480)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O que diria Beckett para um representante da nossa classe política?

"Eis aí um grande homem, acusando as botas quando a culpa é dos seus pés."

Samuel Beckett
(Traduzido livremente de "Waiting for Godot", Ato 1)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Pontos de vista morais

"Frequentemente, como diria Adam Smith, o que é visto como um vício privado pode tornar-se uma virtude pública."

Emrys Westacott
(Traduzido livremente de "The Virtues of our Vices", Princeton Press, 2012, pg 10)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Linhas estreitas

"Se o idiota persistir em sua folia, tornar-se-á sábio."

William Blake
(Traduzido livremente de "The Marriage of Heaven and Hell", em "Works of William Blake", Kindle edition, Kindle location: 1551)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A descrença do significado contemporâneo de crença religiosa

"'Crença' é uma dessas palavras que mudaram de significado. A palavra inglesa para 'crença' significava 'lealdade', 'compromisso'. Ela é a tradução da palavra grega 'pistis'. No novo testamento em grego Jesus pergunta: 'você tem pistis?' e isto não significa acreditar em alguma doutrina, significa 'compromisso'. Jesus não pediu que as pessoas acreditassem que Ele era a segunda pessoa da Santíssima Trindade, uma ideia que eu acho que o deixaria perplexo. Ele perguntou se as pessoas estavam preparadas para dar o que tinham aos pobres, para viver apenas com o básico, como ele, para viver como as aves do céu e os lírios dos campos, confiando em Deus e para trabalhar dia e noite para a construção de um reino em que ricos e pobres se sentariam juntos em harmonia. Compromisso, ação. Foi apenas no século 17 que a palavra 'crença' mudou de significado, sendo usada primeiramente por cientistas e filósofos para denominar a aceitação intelectual de uma proposição duvidosa. Na época da Reforma, quando todos estavam discutindo a transubstanciação, a morte dessas 'crenças', a palavra ganhou um significado que não tinha em outras tradições. O budismo não tem crenças, trata-se apenas de práticas. O judaísmo não tem crenças e o Alcorão é extremamente duro com relação à teologia, à ortodoxia teológica, que ele chama de 'zanna', suposições autoindulgentes sobre questões das quais ninguém pode ter certeza mas que tornam as pessoas irritadiças e burramente sectárias. O conhecimento religioso é um tipo de conhecimento prático. É como nadar ou dirigir. Você tem que entrar no carro e aprender. Não se pode aprender a dirigir apenas lendo o manual do carro."


Karen Armstron
(Em entrevista ao programa Milênio da Globo News - 29/7/2013)

domingo, 14 de julho de 2013

Fraqueza moral



"Pessoas fracas nunca provocam o fim de nada. Elas esperam que outros o façam".

Do filme de Terrence Malick, "To the Wonder" (2012)

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O Patriota Brasileiro

“O patriotismo é o último refúgio do canalha. No Brasil, é o primeiro”.

Millôr Fernandes
(em algum lugar que esqueci - mas é dele - e em um momento como este não podia deixar de postar)

terça-feira, 11 de junho de 2013

Autoconhecimento à grega

"E esse é o prodígio da vida, que qualquer ser humano que presta atenção a si mesmo sabe o que nenhuma ciência sabe, dado que ele sabe quem ele mesmo é, e isso é o que há de mais profundo na sentença grega 'conhece-te a ti mesmo', que há já bastante tempo tem sido compreendida à maneira alemã, relacionada à autoconsciência pura, a quimera do idealismo. Já está mais do que na hora de se tentar entendê-la em grego."

Soren Kierkegaard
(Em "O conceito de angústia", Trad. Álvaro Luiz Montenegro Valls, Editora Vozes 2010, pg 87)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Os novos retrógrados

"Algo parecido à redução missionária aconteceu com o advento da web 2.0. Tudo aquilo que é estranho e diferente está sendo dissolvido e extraído da rede em um processo de homogenização. As páginas pessoais, quando primeiro apareceram no início da década de 90, tinham um sabor de individualidade. O MySpace preservou algo deste sabor, apesar do processo de formatação e regularização ter já então começado. O Facebook foi além, organizando pessoas em identidades de múltipla escolha, enquanto que a Wikipedia hoje tenta apagar por completo qualquer ponto de vista. Se uma igreja ou governo estivesse fazendo estas coisas, seriam vistos como autoritários, mas quando tecnólogos são os culpados tudo parece bacana, novo e inventivo. As pessoas aceitam facilmente ideias que pareceriam terríveis se apresentadas de qualquer outra forma, basta que sejam vestidas com o disfarce da tecnologia. É paradoxal ouvir muitos de meus amigos no mundo da cultura digital afirmarem-se os verdadeiros filhos da Renascença, quando ao mesmo tempo usam os computadores para reduzir a expressão individual e passam assim a aderir a uma atividade que é primitiva e retrógrada, não importa quão sofisticados sejam os meios de exercê-la."

Jaron Lanier
(Traduzido livremente do capítulo 3, seção "Nerd Reductionism", de "You are not a gadget", Alfred Knopf, 2010)

domingo, 9 de junho de 2013

Zumbis filosóficos

"Zumbis são personagens comuns nos experimentos mentais dos filósofos. Eles são como pessoas em todos aspectos, exceto que não possuem experiência subjetiva. São inconscientes, mas não dão nenhuma evidência externa deste fato. (...) Muito se debateu sobre se um zumbi poderia realmente existir, ou se a experiência subjetiva deve inevitavelmente revelar-se, seja através do comportamento exterior, seja por algum evento mensurável no cérebro. Eu afirmo que há somente uma diferença mensurável entre um zumbi e uma pessoa: um zumbi tem uma filosofia diferente. Portanto, zumbis só podem ser detectados se eles se passarem por filósofos profissionais. Um filósofo como Daniel Dennett é obviamente um zumbi."

Jaron Lanier
(Traduzido livremente do capítulo 2, seção "Zomby Army", de "You are not a gadget", Alfred Knopf, 2010)

sábado, 8 de junho de 2013

Imprescindível

"Ora, sabem os senhores, sabem que sem o inglês a humanidade ainda pode viver, sem a Alemanha pode, sem o homem russo é possível demais, sem a ciência pode, sem o pão pode, só não pode sem a beleza, porque nada restaria para fazer no mundo! Todo o segredo está aí, toda a história está aí! A própria ciência não sobreviveria um minuto sem a beleza - sabem disso, senhores ridentes? - ela se converteria em banalidade, não inventaria um prego!"


Fiódor Dostoiévski
(Em "Os Demônios", Paulo Bezerra (trad.), Editora 34, 4a edição, 2004, pg 473)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Irrealidade virtual

"A abordagem 'anti-humana' da computação é uma das ideias mais infundada que a humanidade já teve. Um computador nem mesmo existe se não houver ninguém a experimentá-lo. Haverá lá certamente uma massa quente de silício padronizado com eletricidade por toda parte, mas os bits não significam nada sem uma pessoa culta que os interprete. E isto não é solipsismo. Você pode acreditar que sua mente cria o mundo, e mesmo assim uma bala ainda irá  lhe matar. Uma bala virtual, porém, nem mesmo existe sem que uma pessoa esteja lá para reconhecê-la como uma representação de uma bala. Armas são reais de um modo que computadores não o são."

Jaron Lanier
(Traduzido livremente do capítulo 2, seção "You Need Culture to Even Perceive Information Technology", de "You are not a gadget", Alfred Knopf, 2010)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Corrige-te enquanto há tempo!

"Toda a segunda metade da vida de um homem é constituída apenas dos hábitos acumulados na primeira".

Fiódor Dostoiévski
(Em "Os Demônios", Paulo Bezerra (trad.), Editora 34, 4a edição, 2004, pg 264)