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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Lacaios da razão

"O niilismo é uma lacaiagem do pensamento. O niilista é um lacaio do pensamento".

Fiódor Dostoíéviski
(Em nota aos manuscritos de "Crime e Castigo", como citado em nota do editor em "Os Demônios", Paulo Bezerra (trad.), Editora 34, 4a edição, 2004, pg 145)

terça-feira, 23 de abril de 2013

Diálogo com o primeiro niilista

"- Já eu me limito a procurar a causa pela qual os homens não se atrevem a matar-se; eis tudo. E isso é indiferente.
- Como não se atrevem? Por acaso há poucos suicídios?
- Muito poucos.
- Não me diga, você acha isso?
Ele não respondeu, levantou-se e ficou a andar para a frente e para trás com ar meditativo.
- A seu ver, o que impede as pessoas de cometerem o suicídio? - perguntei.
Ele olhou distraído, como se tentasse se lembrar do que estávamos falando.
- Eu... ainda sei pouco... dois preconceitos o impedem, duas coisas; só duas; uma, muito pequena, a outra, muito grande. Mas até a pequena também é muito grande.
- Qual é a pequena?
- A dor.
- A dor? Será que isso é tão importante... neste caso?
- De primeiríssima importância. Há duas espécies de suicida: aqueles que se matam ou por uma grande tristeza ou de raiva, ou por loucura, ou seja lá por que for... esses se matam de repente. Esses pensam pouco na dor, se matam de repente. E aqueles movidos pela razão - estes pensam muito.
- E por acaso há esse tipo que se mata por razão?
- Muitos. Se não houvesse preconceito esse número seria maior; muito maior; seriam todos.
- Mas todos mesmo?
Ele fez silêncio.
- E porventura não há meios de morrer sem dor?
- Imagine - parou ele diante de mim -, imagine uma pedra do tamanho de uma casa grande; ela está suspensa e você debaixo dela; se lhe cair em cima, na cabeça, sentirá dor?
- Uma pedra do tamanho de uma casa? É claro que dá medo.
- Não estou falando de medo; sentirá dor?
- Uma pedra do tamanho de uma montanha, milhões de puds? É claro que não há dor nenhuma.
- Mas se você realmente ficar debaixo, e enquanto ela estiver suspensa, vai ter muito medo de sentir dor. O primeiro cientista, o primeiro doutor, todos, todos sentirão muito medo. Cada um saberá que não sentirá e cada um terá muito medo de sentir dor.
- Bem, e a segunda causa, a grande?
- É o outro mundo.
- Ou seja, o castigo?
- Isso é indiferente. O outro mundo; só o outro mundo.
- Por acaso não há ateus que não acreditam absolutamente no outro mundo?
Tornou a calar-se.
- Você não estará julgando por si?
- Ninguém pode julgar senão por si mesmo - pronunciou ele enrubescendo. - Haverá toda a liberdade quando for indiferente viver ou não viver. Eis o objetivo de tudo.
- Objetivo? Neste caso é possível que ninguém queira viver?
- Ninguém - pronunciou de modo categórico.
- O homem teme a morte porque ama a vida, eis o meu entendimento - observei -, e assim a natureza ordenou.
- Isso é vil e aí está todo o engano! - os olhos dele brilharam. - A vida é dor, a vida é medo, e o homem é um infeliz. Hoje tudo é dor e medo. Hoje o homem ama a vida porque ama a dor e o medo. E foi assim que fizeram. Agora a vida se apresenta como dor e medo, e nisso está todo o engano. Hoje o homem ainda não é aquele homem. Haverá um novo homem, feliz e altivo. Aquele para quem for indiferente viver ou não viver será o novo homem. Quem vencer a dor e o medo, esse mesmo será Deus. E o outro Deus não existirá.
- Então a seu ver o outro Deus existe mesmo?
- Não existe, mas ele existe. Na pedra não existe dor, mas no medo da pedra existe dor. Deus é a dor do medo da morte. Quem vencer a dor e o medo se tornará Deus. Então haverá uma nova vida, então haverá um novo homem, tudo novo... Então a história será dividida em duas partes: do gorila à destruição de Deus e da destruição de Deus...
- Ao gorila?
- À mudança física da terra e do homem. O homem será Deus e mandará fisicamente. O mundo mudará, e as coisas mudarão, e mudarão os pensamentos e todos os sentimentos. O que você acha, então o homem mudará fisicamente?
- Se for indiferente viver ou não viver, todos matarão uns aos outros e eis, talvez, em que haverá mudança.
- Isso é indiferente. Matarão o engano. Aquele que desejar a liberdade essencial deve atrever-se a matar-se. Aquele que se atrever a matar-se terá descoberto o segredo do engano. Além disso não há liberdade; nisso está tudo, além disso não há nada. Aquele que se atrever a matar-se será Deus. Hoje qualquer um pode fazê-lo porque não haverá Deus nem haverá nada. Mas ninguém ainda o fez nenhuma vez.
- Houve milhões de suicidas.
- Mas nunca com esse fim, tudo com medo e não com esse fim. Não com o fim de matar o medo. Aquele que se matar apenas para matar o medo imediatamente se tornará Deus.
- Talvez não consiga - observei.
- Isso é indiferente - respondeu baixinho, com uma altivez tranquila, quase com desdém. - Lamento que você pareça estar rindo - acrescentou meio minuto depois.
- Acho estranho que pela manhã você estivesse tão irritadiço mas agora esteja tão tranquilo, embora falando com ardor.
- Pela manhã? Pela manhã foi ridículo - respondeu com um sorriso -, não gosto de injuriar e nunca rio - acrescentou com ar triste.
- É, é triste o seu jeito de passar as noites tomando chá. - Levantei-me e peguei o quepe.
- Você acha? - sorriu ele com certa surpresa. - E por quê? Não, eu... eu não sei - atrapalhou-se subitamente -, não sei como fazem os outros, mas sinto que não posso fazê-lo como qualquer um. Qualquer um pensa, e logo depois pensa em outra coisa. Não posso pensar em outra coisa, pensei na mesma coisa a vida inteira. Deus me atormentou a vida inteira - concluiu de súbito com uma surpreendente expansividade."

Fiódor Dostoiéviski
(Em "Os Demônios", Paulo Bezerra (trad.), Editora 34, 4a edição, 2004, pg 118-121)

ps.: Estas linhas foram escritas em 1871. Doze anos antes de Nietzsche iniciar a escrever seu "Assim falou Zaratustra".

sábado, 19 de maio de 2012

O carvalho russo

"À beira do caminho, erguia-se um carvalho. Sem dúvida dez vezes mais velho que as bétulas, era dez vezes mais grosso e se elevava dez vezes mais alto. Era um carvalho enorme, de duas braças de diâmetro, com galhos quebrados desde muitos anos e uma casca esburacada, costurada de bossas e de escaras. Seus largos braços nodosos e desgraciosos, estendidos sem a menor simetria, davam-lhe entre as jovens bétulas sorridentes, o aspecto dum velho monstro encolerizado, desdenhoso. Só ele se recusava abandonar-se ao encantamento da rebrotação e recusava ver a primavera e o sol.

'Primavera, amor, felicidade! - parecia dizer aquele carvalho. - Não estais cansados dessa eterna burla? Não vedes que tudo isso não passa de tolice e de burla? Não há nem primavera, nem sol, nem felicidade. Olhai esses abetos, mortos, abafados, sempre semelhantes; e eu também, muito tentei estender meus braços tortos e retalhados, saíram de meu dorso, de meus flancos, de toda parte donde podiam, e eu fico aqui, agora, e não creio nem em vossas esperanças, nem em vossas mentiras.'

Várias vezes, enquanto atravessava a floresta, o Príncipe André se voltou para olhar aquele carvalho, como se dele esperasse alguma coisa. Sob sua sombra, havia flores e relva, mas ele, o velho monstro, erguia obstinadamente sua massa sombria e intratável.

'Sim, ele tem razão, mil vezes razão, aquele carvalho - pensava André. - Que outros, os jovens, se deixem ludibriar por essa burla, mas nós, nós sabemos a que nos ater: nossa vida está acabada, bem acabada!'

A vista daquela árvore provocou nele uma eclosão de novos pensamentos desesperados, mas cheios dum encanto melancólico. No curso dessa viagem, submeteu sua maneira de viver a novo exame aprofundado e chegou, uma vez mais, a esta conclusão desencantada mas acalmante, que nada devia empreender, mas acabar simplesmente sua vida sem fazer o mal, sem se amofinar, sem nada desejar."

Leon Tolstoi
(Em "Guerra e Paz", tradução Oscar Mendes, Itatiaia 1997, pg 438)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Fim

"Vai virar ruína. Porque tudo está em ruínas. Tudo degradou-se. Mas eu não diria que se arruinou e deteriorou-se a esse ponto. Porque isso não é nenhum cataclismo, provocado pela assim chamada inocente ajuda humana. Pelo contrário, é sobre o próprio julgamento do homem, seu próprio julgamento sobre si mesmo, no qual certamente Deus está envolvido, ou, atrevo-me a dizer, tem um papel ativo. E qualquer coisa em que ele participe ativamente é a mais horripilante criação que você possa imaginar. Porque, veja você, o mundo degradou-se. Então não interessa o que eu digo, tudo degradou-se a tal ponto que eles adquiriram. E, como eles adquiriram tudo de maneira encoberta, furtiva, degradaram tudo. Porque qualquer coisa em que eles põem a mão - e eles tocam em tudo - eles degradam. Assim foi até a vitória final. Até o triunfo total. Adquirir, degradar. Degradar, adquirir. Ou, posto de maneira diferente, se você preferir: pôr as mãos, degradar e finalmente adquirir; ou pôr as mãos, adquirir e finalmente degradar. Tem sido assim há séculos. Isso, e somente isso, algumas vezes matreiramente, outras rudemente, às vezes delicadamente, às vezes violentamente, é o que vem acontecendo. E por fim de uma única maneira, como um ataque de ratos em uma emboscada. Porque para essa vitória perfeita, também foi essencial que o outro lado, pensando que tudo estava excelente, grandioso e nobre, não se engajasse em nenhum tipo de embate. Não deveria haver luta de espécie alguma, somente o rápido desaparecimento de um dos lados, o desaparecimento da excelência, da grandiosidade, da nobreza. De forma que agora os vencedores, que armaram a emboscada, regem a Terra, e não existe canto algum onde alguém possa esconder-se deles, pois tudo em que eles conseguem pôr as mãos é deles. Até mesmo coisas que achamos que eles não alcançam - e eles alcançam - também é deles. Porque o céu já é deles, e todos os nossos sonhos. Deles é o momento, a natureza, o silêncio infinito. Até a imortalidade é deles, entendeu? Tudo, tudo está perdido para sempre! E todas aquelas pessoas nobres, excelentes pessoas, simplesmente não interferiram, se assim posso colocar. Eles pararam neste ponto, e tinham que entender, e tinham que aceitar, que não há Deus nem santos. E os excelentes, os grandes, os nobres tinham que entender e aceitar isto desde o princípio. Com certeza foram incapazes de entender isso. Eles acreditaram e aceitaram, mas não entenderam. Ficaram somente perplexos, resignados, até que algo - um brilho do espírito - finalmente os iluminasse. E de repente eles perceberam que não há Deus nem santos. E também que não há nem o bem nem o mal. Então eles viram e entenderam que se assim fosse eles também não existiam! Acho que esse pode ter sido o momento em que podemos dizer que os excelentes foram extintos, desvaneceram-se. Extintos e apagados, como a fogueira deixada para se apagar no campo. Um o perdedor constante, o outro sempre vencedor. Derrota, vitória; derrota, vitória. E um dia - por aqui mesmo - dei-me conta, realmente percebi que estava enganado quando pensei que nunca houvera e nem poderia haver qualquer tipo de mudança aqui na Terra. Porque, acredite-me, eu sei agora que essa mudança realmente aconteceu. "


Do filme de Bellá Tarr, "A Tórino Ló" ("O Cavalo de Turim"), 2011.