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terça-feira, 27 de novembro de 2012

A dor não te matará!

[É mais uma ocasião para postagens longas, depois de dias de silêncio.]

"Bom dia, classe de 2011. Bom dia, familiares e professores. Estou feliz e honrado por estar aqui com vocês.

Assumo que vocês sabiam o que encontrariam quando escolheram um escritor para pronunciar este discurso. Farei aquilo que fazem normalmente os escritores, isto é, falarei de mim mesmo na esperança que a minha experiência tenha alguma afinidade com as suas. Gostaria de aproximar-me do argumento sobre o amor, do papel que ele possui na minha vida e no estranho mundo tecnocapitalista que vocês estão herdando.

Algumas semanas atrás, substituí o BlackBerry Pearl que possuí nos últimos três anos por um BlackBerry Bold, muito mais potente, dotado de câmera de 5 megapixels e compatível com a rede 3G. É inútil dizer que  fiquei impressionado com os progressos tecnológicos atingidos ao longo dos últimos três anos. Até mesmo quando não devia telefonar, mandar mensagem ou e-mail, queria continuar a afagar meu novo BlackBerry, a saborear a maravilhosa nitidez da tela, o funcionamento aveludado do minúsculo trackpad, a assombrosa velocidade de reação, a sedutora elegância da gráfica. Em poucas palavras, apaixonei-me pelo novo dispositivo. Tive também uma paixão análoga por aquele velho, naturalmente, mas com o passar dos anos nosso relacionamento foi se degradando. Entre mim e meu Pearl havia os comuns problemas de confiança, responsabilidade e compatibilidade, e, próximo do fim, eu tinha inclusive começado a duvidar da sua saúde mental, até que decidi ser aquela a hora de acabar com a relação.

Ocorre talvez sublinhar que aquela relação - se não viermos a crer em alguma projeção antropomórfica maluca que me fizesse ver o velho BlackBerry entristecer-se pelo fim do meu amor - era totalmente unilateral? Permitam-me sublinhá-lo de qualquer modo. Permitam-me também sublinhar que em todas as descrições dos dispositivos de última geração aparece sempre a palavra "sexy"; que as coisas fantásticas atingíveis hoje com tais dispositivos - colocá-los em funcionamento pronunciando uma fórmula mágica, por exemplo, ou aumentar a imagem no iPhone com um simples movimento de dedos - seriam, às pessoas de 100 anos atrás, algo como encantos maravilhosos; e que, quando queremos descrever uma relação erótica que funciona maravilhosamente, falamos propriamente de "magia". Permitam-me propor a ideia de que, seguindo a lógica do tecnoconsumismo, segundo a qual os mercados descobrem os desejos dos consumidores e reagem em consequência, a tecnologia tornou-se habilíssima no ato de criar produtos correspondentes a um nosso ideal de relação erótica na qual o objeto amado não pede nada mas concede tudo, sem retardo, provocando-nos a sensação de onipotência, e não se desespera em escândalos quando é jogado em uma caixa e substituído por outro objeto ainda mais sexy; segundo esta ideia (em um plano mais geral), o objetivo último da tecnologia, o telos da techne, seria substituir um mundo natural indiferente aos nossos desejos - um mundo de furacões, sofrimentos e corações frágeis; um mundo de resistência - com um mundo de tal modo sensível a estes mesmos desejos que se transforma, em prática, numa mera extensão do eu. Permitam-me sugerir, portanto, que o mundo do tecnoconsumismo seja obstaculado pelo amore verdadeiro, e que, para se defender deste amor, não lhe resta nada sem ser obstaculá-lo em retorno.

A primeira linha de defesa consiste em mercantilizar o inimigo. Todos vocês certamente têm em mente algum caso de nauseante mercantilização do amor. Os meus exemplos favoritos compreendem a indústria do matrimônio, as propagandas televisivas com pequenas e adoráveis crianças, ou onde se passa a ideia de um automóvel como presente de Natal, e a equiparação, particularmente grotesca, entre diamantes e devoção eterna. A mensagem, em qualquer caso, é que se você ama alguém, então deve comprar algo.

Um fenômeno ligado a tudo isto é a atual transformação, gerada pelo Facebook, do verbo "gostar": de uma disposição de ânimo a uma ação executada com o mouse; de um sentimento a uma afirmação de escolha do consumidor. E em geral, na cultura comercial, "gostar" substituiu "amar". O aspecto mais evidente destes produtos de consumo - e em particular dos dispositivos eletrônicos e das suas aplicações - é que eles são projetados para serem imensamente prazerosos. Esta é, de fato, a definição do produto de consumo, ao contrário do produto que se limita a ser aquilo que é, sem que seus fabricantes queiram torná-lo mais prazeroso a todo custo: penso por exemplo nos motores de jatos, nos equipamentos de laboratório, na arte e na literatura séria.

Mas se vocês considerarem tudo isto de um ponto de vista humano, e imaginarem uma pessoa caracterizada de um desejo desesperado de prazer, o que vocês verão? Verão uma pessoa desequilibrada, sem integridade. Nos casos mais patológicos verão um total narcisista: uma pessoa que não suporta não ser agradável aos demais porque isto afetaria a imagem que ela tem de si mesma, e por isso evita qualquer contato humano, ou então faz de tudo para ser agradável a todos, sacrificando a própria integridade.

Porém, se hoje vocês dedicam as suas existências à tentativa de ser agradável aos outros, e assumem a imagem mais cativante possível, talvez seja porque vocês não acreditam na possibilidade de serem amados por aquilo que verdadeiramente são. E se vocês conseguirem ser amados pelos outros apenas com esta fraude, então será difícil depois não provar um certo desprezo por quem caiu no golpe. Os outros existirão para fazer com que vocês se sintam bem consigo mesmos, mas este sentimento de bem-estar será confiável se provem de pessoas que vocês não respeitam? Poderão acabar na depressão, entregues ao álcool, ou, se forem como Donald Trump, candidatando-se à presidência (e depois desistindo).

Os produtos tecnológicos de consumo não farão nunca nada de desagradável, naturalmente, porque não são pessoas. Porém, são grandes aliados do narcisismo, nutrem-no e sustentam-no. A sua ânsia intrínseca de prazer convive com uma ânsia intrínseca de mostrar uma bela figura. A nossa vida parece ser muito mais interessante quando é filtrada pela interface sexy do Facebook. Somos os protagonistas do nosso filme, fotografamo-nos sem limites, basta um click para uma máquina confirmar nosso sentimento de superioridade. E como a tecnologia não é outra coisas senão uma extensão de nós mesmos, não somos obrigados a desprezá-la, pois ela se deixa transformar naquilo que quisermos, ao contrário do que ocorre com pessoas verdadeiras. É um único, grande círculo vicioso. O espelho é-nos agradável e nós somos agradáveis ao espelho. Tornar-se amigo de alguém no Facebook significa simplesmente incluir este alguém na nossa sala particular de espelhos aduladores.

Talvez eu esteja exagerando um pouco. Vocês não aguentam mais escutar cinquentenários escorbúticos que desprezam as mídias sociais. Mas a minha intenção aqui é sobretudo contrapor a tendência narcisística da tecnologia ao problema do amor real. A minha amiga Alice Sebold fala de "sujar as mãos amando alguém". Refere-se então à lama que inevitavelmente o amor espirra sobre o espelho da nossa vaidade. O fato é que o desejo de prazer a qualquer custo é incompatível com uma relação sentimental. Cedo ou tarde, por exemplo, vocês encontrar-se-ão em uma briga terrível, e lhes sairá da boca coisas que não lhes agradarão em nada, que destruirão as suas imagens de pessoas boas, gentis, tranquilas, atraentes, equilibradas, divertidas, agradáveis. Emergirá um lado mais autêntico, e de repente vocês serão catapultados na vida verdadeira. De repente encontrar-se-ão diante à necessidade de uma escolha verdadeira: no lugar da falsa escolha de consumo entre BlackBerry e iPhone, uma pergunta: amo esta pessoa? E esta pessoa me ama? O verdadeiro eu de um individuo não poderá nunca agradar-lhes totalmente. Eis porque um mundo feito de coisas que nos agradam totalmente é substancialmente uma mentira. Porém é sem dúvida possível amar totalmente o verdadeiro eu de um individuo. E eis porque o amor representa uma ameaça existencial para a ordem tecnoconsumista: porque desmascara a mentira.

Uma coisa que me anima, no meio da invasão de telefones celulares que aflige meu quarteirão em Manhattan, é que por vezes, entre os zumbis enviando mensagens e os organizadores de eventos que tagarelam na calçada, acontece de ouvir alguém que está tendo uma bela briga, como Deus ordena, com a pessoa amada. Estou certo que aquela pessoa preferiria não brigar em meio à rua, porém isto lhe acontece, e ela se comporta de maneira nada tímida. Grita, acusa, suplica, insulta. Estas são as coisas que me dão esperança.

Isto não significa que o amor seja feito apenas de brigas, e nem que as pessoas profundamente egocêntricas não sejam capazes de acusar e insultar. Na realidade, o amor é feito de empatia sem medida, um sentimento que nasce da descoberta íntima que uma outra pessoa é tão real quanto vocês. E é por isto que o amor, do modo como o vejo, é sempre específico. Esforçar-se para amar toda a humanidade pode ser uma tarefa admirável, mas, estranhamente, a atenção permanece focada apenas sobre o eu, sobre o bem-estar moral e espiritual do eu. Enquanto que para se amar uma pessoa específica, para se identificar com as suas lutas e alegrias como se fossem nossas, devemos sacrificar uma parte do nosso eu.

Durante o último ano da universidade, acompanhei o seminário de teoria literária organizado do instituto e apaixonei-me da estudante mais brilhante do curso. Gostávamos da sensação imediata de poder, gerada pela teoria literária - que nisto lembra a atual tecnologia de consumo - e orgulhávamo-nos por sermos muito mais sofisticados do que aqueles que permaneciam ligados à chatice da leitura cuidadosa. Além disso, por uma série de razões teóricas, parecia-nos que seria uma boa ideia nos casar. Minha mãe, que por vinte anos procurou transmitir-me o desejo de uma relação sentimental séria, mudou de ideia e começou a insistir para que eu transcorresse a minha juventude, para dizer com suas palavras, "livre como o vento". Naturalmente, como pensei que minha mãe tinha errado antes, decidi que estava errando também nisso. E tive que aprender, às minhas custas, que uma relação séria é uma questão bem embrulhada.

A primeira coisa da qual nos livramos foi a teoria. Para citar uma frase memorável daquela que seria depois minha esposa, após uma cena infeliz na cama: "Não podes desconstruir e despir-te ao mesmo tempo". Passamos um ano em dois continentes diversos, e muito rápido descobrimos que, por mais que fosse divertido encher as páginas de nossas cartas de refrões teóricos, lê-las era muito menos divertido. Mas aquilo que acabou definitivamente com minha paixão pela teoria - e começou a curar-me, de modo geral, da obsessão de agradar aos outros - foi o amor pela narrativa. Existe talvez uma semelhança superficial entre a revisão de um pedaço de narrativa e a revisão da própria página web ou do próprio perfil no Facebook; mas uma página de prosa não possui aquela gráfica brilhante que ajuda a melhorar a própria imagem de si. Se vocês quiserem retribuir aquilo que receberam por meio da narrativa de alguém,  não poderão ignorar por muito tempo aquilo que é desonesto ou reciclado nas suas páginas. Também estas páginas são um espelho, e se vocês verdadeiramente amam escrever, então perceberão que as únicas páginas que valem ser conservadas são aquelas que refletem o verdadeiro eu.

O risco, naturalmente, é a rejeição. Todos podemos suportar não sermos agradáveis a alguém, de tempo em tempo, já que a reserva de potenciais admiradores é sempre finita. Mas despir completamente nosso verdadeiro eu, não apenas a superfície agradável, e vê-lo ser rejeitado pode ser catastroficamente doloroso. É a perspectiva da dor em geral - dor da perda, da separação, da morte - que nos força a evitar o amor e permanecer em segurança com as coisas que gostamos. Eu e minha esposa, depois de nos casarmos muito jovens, acabamos por renunciar a nós mesmos, causando-nos tanto mal que nos arrependemos de ter dado aquele passo.

Mas não posso afirmar que estou completamente arrependido. Em primeiro lugar, o esforço de ser fiel ao empenho recíproco plasmou a nossa identidade; não éramos moléculas de hélio que flutuavam inertes através da existência: a nossa ligação nos transformou. Em segundo lugar - e este é talvez a mensagem principal que queria transmitir-lhes hoje - a dor faz mal, mas não mata. Se considerarem a alternativa - um sonho anestesiado de autossuficiência, preferido pela tecnologia -, a dor então lhes aparecerá como o resultado natural e o indicador natural do fato de vocês estarem vivos em um mundo que opõe resistência. Transcorrer uma vida inteira sem dor significa não ter jamais vivido realmente. Quem de vocês diz a si mesmo: "Oh, a esta fase de amor e de dor chegarei depois, talvez lá pelos meus trinta", terá diante a si uma década na qual se limitará a ocupar espaço sobre o planeta e queimar recursos. Uma década na qual não será outra coisa senão um consumidor (e refiro-me ao sentido mais negativo da palavra).

Aquilo que afirmei antes, o fato do envolvimento sério com quem se ama obrigar-nos a enfrentar o nosso verdadeiro eu, aplica-se talvez em modo particular à escrita, mas vale na prática para todo trabalho desenvolvido com amor. Gostaria então de concluir falando de um outro dos meus amores.

Quando frequentava a universidade, e depois ainda por muitos anos, a natureza me atraía. Não a amava, mas decididamente ela me atraía. A natureza pode ser muito bonita. E visto que eu estava possuído da chama da teoria crítica, e procurava pelas coisas erradas do mundo e pelos motivos para odiar as pessoas que o governam, fui naturalmente levado ao ambientalismo, pois a nossa relação com o ambiente tinha muitas coisas erradas. Quanto mais me preocupava com o que há de errado - a explosão demográfica, o consumo desenfreado de recursos, o aumento da temperatura global, a devastação dos oceanos, a derrubada das últimas florestas tropicais -, mais me enfurecia e mais odiava os outros. Ao cabo, mais ou menos no período em que meu matrimônio ia se desmanchando e eu percebia que sofrer era uma coisa mas passar o resto da minha vida sempre cada vez mais enfurecido e infeliz era outra bem diferente, decidi em plena consciência parar de preocupar-me com o ambiente. Não havia nada de significativo que eu pudesse fazer sozinho para salvar o planeta, e preferi simplesmente continuar a ocupar-me das coisas que amava. Buscava ainda reduzir o meu impacto ambiental, mas era o máximo que podia fazer sem retornar à raiva e ao desespero.

Então, aconteceu-me uma coisa estranha. É uma história longa, mas em prática apaixonei-me dos pássaros. Não cedi sem opor resistência, porque ser um birdwatcher é uma coisa para fracassados, pois tudo aquilo que revela uma paixão autêntica é por definição uma coisa de fracassados. Porém, pouco a pouco, malgrado meu, cultivei-a, esta paixão, e se é verdadeiro que uma paixão é feita metade de obsessão, a outra metade é feita de amor. E então comecei a manter um elenco meticuloso dos pássaros que encontrava, e também a fazer loucuras para encontrar novas espécies. E, algo não menos importante, cada vez que via um pássaro, qualquer pássaro, mesmo um pombo ou um pardal, meu coração transbordava de amor. E o amor, como tentei dizer-lhes hoje, é o início de todos nossos problemas.

Pois agora, como não podia simplesmente dizer que gostava da natureza e ponto final, visto que eu amava uma parte específica e vital desta natureza, tive que recomeçar a me preocupar pelo ambiente. As notícias daquele fronte não eram melhores do que quando eu havia decidido parar - ao contrário, eram muito piores - mas agora as florestas, os pântanos, os oceanos ameaçados não representavam mais apenas belas paisagens. Eram a casa dos animais que amava. E então emergiu um paradoxo curioso. A preocupação pelos pássaros selvagens aumentou em mim a raiva, a dor e o desespero pelo planeta, mas, quando comecei a empenhar-me ativamente na proteção dos pássaros e aprendi ainda mais sobre as numerosas ameaças que devem ser afrontadas, achei estranhamente mais fácil, em vez de ser mais difícil como se esperaria, conviver com a raiva, o desespero e a dor.

Como é possível? Antes de mais nada, creio que o amor pelos pássaros deu-me acesso a uma parte importante de mim, uma parte menos egocêntrica, a qual ignorei por toda minha existência. Ao invés de continuar a viver a rotina de cidadão global entre coisas que me agradavam e coisas que não me agradavam,  adiando meu empenho a um futuro indefinido, tive então que encarar definitivamente um eu que podia somente ser aceito ou rejeitado em bloco. Este é o efeito do amor sobre as pessoas. Pois a realidade fundamental da vida é que estamos vivos um pouco, mas cedo ou tarde morreremos. Esta realidade é a verdadeira causa da raiva, da dor e do desespero. Vocês podem fugir desta realidade, ou então, através do amor, aceitá-la. 

Como eu dizia, esta história dos pássaros foi totalmente inesperada. Por boa parte da minha existência eu não tinha nunca provado um interesse particular pelos animais. E talvez tenha sido uma infelicidade ter descoberto os pássaros assim tão tarde, ou talvez tenha sido uma grande felicidade simplesmente tê-los descoberto. Mas uma vez que um amor como este lhes golpeia, ocorra isto cedo ou tarde, a sua relação com o mundo muda. Eu, por exemplo, tinha abandonado o jornalismo depois das primeiras tentativas, porque o mundo dos fatos não me entusiasmava como aquele da fantasia. Mas quando a minha conversão ornitológica ensinou-me a correr na direção da dor, da raiva, do desespero, em vez de evitá-los, comecei a aceitar um novo tipo de atribuição jornalística. De tempos em tempos a coisa que eu mais odiava virava o argumento sobre o qual queria escrever. Fui a Washington no verão de 2003, enfurecido por aquilo que a administração Bush estava fazendo ao país. Alguns anos depois fui à China, pois a raiva pelos desastres ambientais provocados pelos chineses deixava-me acordado à noite. Andei pelo Mediterrâneo para entrevistar os caçadores que massacravam os pássaros migratórios. Cada vez, quando encontrava os meus inimigos, encontrava neles também algo que me agradava, por vezes até que eu amava.  Jovens chineses amantes da natureza e incrivelmente corajosos. Membros gays do quadro de funcionários do partido republicano, divertidos, generosos e brilhantes. Um legislador italiano com o olhar doce e a mania pelas armas, que me citou Peter Singer, o defensor dos direitos dos animais. Em cada caso, era difícil continuar a sentir aquela aversão genérica que eu havia provado no início.

Quando vocês se fecharem em um quarto alimentando a raiva, o desprezo, a indiferença, como eu fiz por tantos anos, o mundo e seus problemas parecerão impossíveis de serem afrontados. Mas quando saírem do quarto e empenharem-se numa relação real com pessoas reais, ou mesmo com animais reais, vocês correrão o risco muito real de acabar amando alguém. E então quem sabe o que poderá acontecer?

Obrigado."

Jonathan Franzen
(Discurso na cerimônia de graduação do Kenyon College, em maio de 2011. Traduzido livremente de "Più lontano ancora", Silvia Pareschi (trad.), Einaudi, 2012, cap. 1)

domingo, 4 de novembro de 2012

Escrúpulos do amor

"Ora, nada entenderia do amor quem supusesse que tais escrúpulos [contra os objetos do amor] poderiam prejudicá-lo. Pelo contrário, dão-lhe o verdadeiro sabor. Eles é que conferem ao amor o incentivo da paixão, de maneira que se poderia definir a paixão, de um modo absoluto, como o amor que duvida."

Thomas Mann
(Em "A Montanha Mágica", Herbert Caro (trad.), Círculo do livro 1952, pg 791)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A amabilidade e a atrocidade

"Mas agora, do pé da minha coluna, abre-se uma vista nada má... Sonhei com a posição do homem e de sua comunidade polida, sisuda e respeitosa, a cujas costas se passava, no interior do templo, uma medonha ceia sangrenta. Será que os filhos do Sol se tratavam uns aos outros com tanta cortesia e amabilidade, precisamente na recordação silenciosa daquela atrocidade? Nesse caso tirariam uma conclusão muito sutil e elegante. (...) Vida ou morte, enfermidade ou saúde, alma e natureza - há oposição entre elas? Eu pergunto se constituem problema. Não! Não são problemas, e tampouco é o tal problema da sua distinção. A deserção da morte está encerrada na vida; sem ela não haveria vida, e a posição do Homo Dei acha-se no meio, entre a deserção e a razão, entre a coletividade mística e o individualismo inconsistente. É o que percebo da minha coluna. Nessa sua posição, cumpre-lhe viver de um modo fino e galante, e manter relações de amistoso respeito consigo próprio; pois só ele é distinto, e não as oposições. O homem é o dono das oposições que existem por seu intermédio, e por conseguinte ele é mais nobre do que elas. Mais nobre do que elas, mais nobre do que a morte, demasiado nobre para ela, e isso constitui a liberdade do seu cérebro. Mais nobre do que a vida, demasiado nobre para ele, e isso constitui a piedade do seu coração. Eis que acabo de fazer um poema, um devaneio poético sobre o homem. Quero lembrar-me dele. Quero ser bom. Não quero conceder à morte nenhum poder sobre os meus pensamentos! Nisso é que consiste a bondade e a filantropia, e em nada mais. A morte é uma grande potência. As pessoas tiram o chapéu e avançam a passo cadenciado, na ponta dos pés, quando ela está presente. Usa a cerimoniosa golilha do passado, e todos se vestem gravemente de preto em sua honra. Diante dela, a razão parece tola, porque é apenas virtude, ao passo que a morte é liberdade, deserção, amorfia e volúpia. A volúpia - clama o meu sonho -, não o amor! A morte e o amor, não, isso não rima; eles dão um poema insípido e falso! O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte do que ela. Só ele, e não a razão, inspira pensamentos bondoso. Também a forma não consta senão de amor e de bondade, a forma e a civilização de uma coletividade sensata e amável e de um belo Estado humano, na recordação silenciosa da ceia sangrenta. Ah, sim, isso se chama sonhar com clareza e 'reinar' bem!"

Thomas Mann
(Em "A Montanha Mágica", Herbert Caro (trad.), Círculo do livro 1952, pg 587-598)


segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Amor e a Angústia

"Oderint, dum metuant [que me odeiem, contanto que me temam], como se o temor e o ódio fossem conexos, e o temor e o amor estranhos um ao outro, como se não fosse o temor que torna o amor interessante. Que é afinal o nosso amor pela natureza? Não existirá nele um misterioso fundo de angústia e horror, por que por trás da sua bela harmonia se encontram a anarquia e uma desenfreada desordem, por trás da sua segurança, a perfídia? Mas é precisamente essa angústia que mais encanta, e o mesmo sucede ao amor, quando se pretende que este seja interessante. Por trás dele deve incubar a noite profunda, cheia de angústia, de onde desabrocham as suas flores. É assim que a nymphea alba, com a sua corola em forma de taça, repousa na superfície das águas, enquanto a angústia se apodera do pensamento que pretende mergulhar nas trevas profundas onde ela tem as suas raízes."

Soren Kierkegaard
(Em "O Diário de um sedutor", na edição de "Os Pensadores",  Carlos Grifo (trad.), Abril Cultural 1979, pg 165)

sábado, 28 de abril de 2012

Amor-próprio e amor ao próximo

"Amor-próprio - o que significa isso? O que eu amo 'em mim mesmo'? O que eu amo quando amo a mim mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais sejam os próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes - mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos se separam e seguimos por conta própria.

É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se 'agarrar à vida', a tentar a todo custo permanecer vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou, melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo, nossos primos animais são mestres e experientes, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles domesticados que nós, seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência e não à deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.

A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida. Pois o que amamos em nosso amor-próprio é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.

Em suma: para termos amor-próprio precisamos ser amados. A recusa do amor - a negação do status de objeto digno do amor - alimenta a auto-aversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos. E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança, que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim temos o direito de nos entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos ouvem com atenção, com um interesse que sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em consideração. Se os outros me respeitam, então obviamente de haver 'em mim' - ou não deve? - algo que só eu lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros - não existem? - que ficariam satisfeitos e gratos por isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente substituída e descartada. Eu 'faço a diferença' para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância - e isso não é apenas um vôo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.

 Se isso é o que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a 'amar o próximo como a si mesmo' (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a pressupor que o próximo de fato representa esses valores - ao menos até prova em contrário. Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um - o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas."

Zygmunt Bauman
(Em "Amor Líquido", trad. Carlos Alberto de Medeiros, Jorge Zahar 2004)

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Fascínio da Rosa

"O amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto a morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento. Faz sentido pensar na diferença entre amor e morte como na que existe entre atração e repulsa. Pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso. As promessas do amor são, via de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos nunca está muito longe e é sempre difícil de resistir."

Zygmunt Bauman
(Em "Amor Líquido", trad. Carlos Alberto de Medeiros, Jorge Zahar 2004, pg 12)