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segunda-feira, 26 de março de 2012

Prudência

"A prudência é uma rica, feia e velha senhora, cortejada pela incapacidade."

William Blake
(Traduzido livremente de "The Marriage of Heaven and Hell", em "Works of William Blake", Kindle edition, Kindle location: 1545) 

sábado, 24 de março de 2012

Por favor, esqueçam



"Estou entre aqueles que abusam do sexo, pois o indivíduo não conta.

Entre aqueles que bebem para lutar contra o abismo do cérebro, contra os festivos desfiles de falsidades, contra o silêncio a martelar nas têmporas.

Entre aqueles que, os pobres e os velhos, competem contra a morte, a bomba atômica hodierna.

Entre aqueles, abúlicos, em asilos, sob tratamentos de choque a perpassar a catarata dos nervos.

Entre os africanos negros, destituídos.

Entre os que matam, pois a cada morte reconfirma-se a mentira que é a vida.

E por favor, esqueçam-se da justiça, pois ela não existe, da fraternidade, pois é uma fraude, do amor, pois ele não tem direitos."

Ingrid Jonker
(Como citado no filme "Black Butterflies" de Paula van der Oest, 2011)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Nascidos do Espanto

"O que eu digo é que o poema nasce de alguma coisa que me espanta, que me surpreende. Não adianta eu decidir que vou escrever um poema, não é assim. Eu sou surpreendido por alguma coisa que acontece, e essa coisa me põe num estado em que eu sou capaz de escrever o poema e fora desse estado eu não sou capaz de escrever, eu tenho que entrar nesse estado. E esse estado é provocado por um acaso, por uma coisa eventual, seja o que for: o osso da minha perna bate num outro osso e eu me espanto e começo a raciocinar sobre isso e a querer expressar essa descoberta de que eu tenho um osso dentro de mim. E assim é tudo. Todos os meus poemas nascem do espanto."

Ferreira Gullar
(Em entrevista à Zero Hora)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A Ausência (bala, relógio ou faca)

"Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;


assim como uma bala 
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;


qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo


igual ao de um relógio
submeso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,


relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;


assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;


qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto


de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.


Seja bala, relógio,
ou lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.


Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.


Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.


Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.


Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):


porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,


nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzida à sua boca,


que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente."

João Cabral de Melo Neto
(Trecho do poema "Uma faca só lâmina", retirado de "Morte e vida severina - e outros poemas", Objetiva 2007, pg 139-141)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Nas viradas do acaso

"O mundo não é eterno e tudo tem um prazo
Nossas vontades mudam nas viradas do acaso;
Pois esta é uma questão ainda não resolvida:
A vida faz o amor, ou este faz a vida?
Se o poderoso cai, somem até favoritos;
Se o pobre sobe surgem amigos irrestritos.
E até aqui o amor segue a fortuna, eu digo;
A quem não precisa nunca falta um amigo.
Mas quem, precisado, prova um falso amigo
Descobre, oculto nele, um inimigo antigo."

William Shakespeare
(Em "Hamlet", trad. Millôr Fernandes, L&PM 2004, pg 74)

domingo, 10 de julho de 2011

O dilema do Poeta

"O dilema do verdadeiro poeta é sempre o mesmo. Se ele é feliz por demasiado tempo, torna-se banal. E se é infeliz por demasiado tempo, não encontra em si a força de manter viva a sua poesia. A felicidade e a verdadeira poesia estão juntos por um tempo brevíssimo. E então a felicidade rende banais poesia e poeta, ou a verdadeira poesia destrói a felicidade"

Ohram Pamuk
(Traduzido livremente de "Neve", trad. Marta Bertolini, Einaudi 2007, pg 134)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A correta dimensão do homem

"Pensar? Só se for para ao mundo voltar
Os problemas não valem pela solução,
muito pelo contrário, valem pelo que são
porque do homem dão a correta dimensão
e nos fazem viver com mais cuidado,
como se o mundo não fosse algo privado
tal como vivem os que se colocam como reis,
ainda que o preço seja viver alienado."


Fernando Carlucci
(O texto completo você acha Aqui!)

[Cabe uma nota minha: se não fosse por um "problema", uma "dificuldade", uma "dor" em algum sentido, penso que este texto não teria surgido. Pois bem, e ainda há aqueles (idiotas?) que procuram o valor maior na felicidade...]

sábado, 23 de abril de 2011

Caminho da vida

    "Caminante, son tus huellas
    el camino y nada más;
    Caminante, no hay camino,
    se hace camino al andar.
    Al andar se hace el camino,
    y al volver la vista atrás
    se ve la senda que nunca
    se ha de volver a pisar.
    Caminante no hay camino
    sino estelas en la mar"

Antonio Machado
("Proverbios y Cantares", XXIX)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Quando a criança era criança...

"Quando a criança era criança,
andava com os braços balançando.
Queria que o córrego fosse um rio,
o rio uma torrente
e que esta poça fosse o mar.
Quando a criança era criança,
não sabia que era uma criança.
Tudo era cheio de vida,
e a vida era única.
Quando a criança era criança,
não tinha opinião sobre nada.
Não tinha hábitos.
Sempre sentava com as pernas cruzadas,
Saía correndo, os cabelos eram desarrumados,
e não fazia pose quando fotografada.


Quando a criança era criança,

era o tempo destas perguntas:
Porque eu sou eu, e não você?
Porque estou aqui, e não ali?
Quando o tempo começou, e onde o espaço termina?
A vida abaixo do sol é apenas um sonho ?
Não seria o que vejo, escuto e cheiro apenas uma visão do mundo antes do mundo?
O diabo e pessoas que são realmente más existem ?
Como pode ser que eu, que sou eu, antes de chegar a sê-lo, não fosse?
E que eu, sendo quem sou, algum dia não serei eu mesmo?


Quando a criança era criança,

engasgava com espinafre, ervilhas pudim de arroz e couve-flor cozido
E agora ela come tudo isso e não porque é obrigada a fazê-lo.
Quando a criança era criança,
uma vez acordou numa cama estranha,
mas agora o faz toda hora.
Naquele tempo, achava muitas pessoas belas,
mas agora raramente.
A criança imaginava claramente o Paraíso,
e agora só consegue suspeitar como seria.
Não podia imaginar o vazio,
e hoje se estremece com a idéia.
Quando a criança era criança,
brincava com entusiasmo
e agora tal entusiasmo só acontece com o trabalho.


Quando a criança era criança, era o momento das seguintes perguntas:

Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui e não ali?
Quando começou o tempo, e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol é apenas um sonho?


Quando a criança era criança,

pães e maçãs eram suficientes para se alimentar
E segue sendo assim.
Quando a criança era criança,
As sementes que caíam em suas mãos eram apenas sementes.
E segue sendo assim.
As nozes deixavam sua língua áspera.
E segue sendo assim.
No topo de cada montanha
desejava uma montanha mais alta.
Em cada cidade, desejava uma cidade maior.
E segue sendo assim.
No alto da árvore, colhia cerejas com tanto entusiasmo
quanto hoje em dia.
Era tímido com os estranhos,
e ainda o é.
Esperava sempre a primeira neve,
e segue sempre fazendo assim.
Quando a criança era criança,
jogou um pau contra uma árvore como se fosse uma lança,
e ainda continua ali, vibrando.
"
Peter Handke - "Lied Vom Kindsein"
(Do filme de Wim Wenders, "Der Himmel über Berlin" (1987), traduzido para o Português como "Asas do Desejo")

quinta-feira, 17 de março de 2011

Amanhecer


"Las banderas cantaron sus colores
   y el viento es una vara de bambú entre las manos
El mundo crece como un árbol claro
                  Ebrio como una hélice
   el sol toca la diana sobre las azoteas
   el sol con sus espuelas desgarra los espejos
Como un naipe mi sombra
   ha caído de bruces sobre la carretera
Arriba               el cielo vuela
   y lo surcan los pájaros como noches errantes
La mañana viene a posarse fresca en mi espalda."

Jorge Luis Borges
("Mañana", em "Textos Recobrados 1919-1929", Emecé 1997, pg 82).

terça-feira, 1 de março de 2011

Presença (em nós) dos ausentes (no mundo)

"Os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos.
Eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias.
Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso,
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça."

Ferreira Gullar
(citando a si mesmo em entrevista concedida ao Roda Viva)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lógica Poética

"Na poesia não há contradições. Estas existem apenas no mundo real, não no mundo da poesia. Aquilo que o poeta cria, tem de ser aceito tal como ele o criou. O seu mundo é exatamente como foi feito. Aquilo que o espírito poético gerou precisa ser acolhido pela sensibilidade poética. A análise fria destrói a poesia e não produz nenhuma realidade. Restam apenas destroços, que não servem para nada e apenas estorvam."

J. W. Goethe
(Conversa com Heinrich Luden, 1806)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Filha do Acaso

"A poesia é a grande inimiga do acaso, apesar de ser, também ela, filha do acaso e de saber que o acaso terá, em última instância, a vitória".

Italo Calvino
(Traduzido livremente de "Lezioni Americane", Mondatori, 2002 pg155)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Dirigindo a vida

"Deveis reger a poesia.
O que nos pedem, já não falte:
Forte porção que empolgue e exalte;
Ponde a fervê-la com urgente afã!
O que hoje não se faz, nos faz falta amanhã;
E não passe um só dia em vão.
Deve aferrar-se a decisão
Ao que é possível; tão em breve
Não pensa em lhe dar larga, então,
E age até o fim, porque é o que deve.
"

J. W. Goethe

(“Fausto”, trad. do alemão por Jenny Klabin Segail, editora 34, 2010, pg 45 - “Prólogo no teatro”)