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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A redundância dos algoritmos burros

"Pessoas não são veículos para a execução de algoritmos, da mesma forma que não são cavalos de espíritos de religiões primitivas. Não se sabe direito como o cérebro funciona e sabe-se que os genes estão mais para registros do que deu certo do que para ordens inquestionáveis. Formas algorítmicas de administrar, controlar, treinar e remunerar o homem o desumanizam, tirando dele o que tem de mais precioso: sua capacidade de pensar."

Luli Radfahrer
(em sua coluna de hoje na Folha Online)

sábado, 8 de junho de 2013

Imprescindível

"Ora, sabem os senhores, sabem que sem o inglês a humanidade ainda pode viver, sem a Alemanha pode, sem o homem russo é possível demais, sem a ciência pode, sem o pão pode, só não pode sem a beleza, porque nada restaria para fazer no mundo! Todo o segredo está aí, toda a história está aí! A própria ciência não sobreviveria um minuto sem a beleza - sabem disso, senhores ridentes? - ela se converteria em banalidade, não inventaria um prego!"


Fiódor Dostoiévski
(Em "Os Demônios", Paulo Bezerra (trad.), Editora 34, 4a edição, 2004, pg 473)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Dia de São Nunca

"Fosse o Tempo suspender-se em espera pela cessão de nossas favoritas loucuras, permaneceríamos jovens - todos nós - até o fim do mundo." 

Nathaniel Hawthorne
(Traduzido livremente de "Wakefield", em "Complete works of Nathaniel Hawthorne", Delphi Classics - Kindle, Location 36739)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A amabilidade e a atrocidade

"Mas agora, do pé da minha coluna, abre-se uma vista nada má... Sonhei com a posição do homem e de sua comunidade polida, sisuda e respeitosa, a cujas costas se passava, no interior do templo, uma medonha ceia sangrenta. Será que os filhos do Sol se tratavam uns aos outros com tanta cortesia e amabilidade, precisamente na recordação silenciosa daquela atrocidade? Nesse caso tirariam uma conclusão muito sutil e elegante. (...) Vida ou morte, enfermidade ou saúde, alma e natureza - há oposição entre elas? Eu pergunto se constituem problema. Não! Não são problemas, e tampouco é o tal problema da sua distinção. A deserção da morte está encerrada na vida; sem ela não haveria vida, e a posição do Homo Dei acha-se no meio, entre a deserção e a razão, entre a coletividade mística e o individualismo inconsistente. É o que percebo da minha coluna. Nessa sua posição, cumpre-lhe viver de um modo fino e galante, e manter relações de amistoso respeito consigo próprio; pois só ele é distinto, e não as oposições. O homem é o dono das oposições que existem por seu intermédio, e por conseguinte ele é mais nobre do que elas. Mais nobre do que elas, mais nobre do que a morte, demasiado nobre para ela, e isso constitui a liberdade do seu cérebro. Mais nobre do que a vida, demasiado nobre para ele, e isso constitui a piedade do seu coração. Eis que acabo de fazer um poema, um devaneio poético sobre o homem. Quero lembrar-me dele. Quero ser bom. Não quero conceder à morte nenhum poder sobre os meus pensamentos! Nisso é que consiste a bondade e a filantropia, e em nada mais. A morte é uma grande potência. As pessoas tiram o chapéu e avançam a passo cadenciado, na ponta dos pés, quando ela está presente. Usa a cerimoniosa golilha do passado, e todos se vestem gravemente de preto em sua honra. Diante dela, a razão parece tola, porque é apenas virtude, ao passo que a morte é liberdade, deserção, amorfia e volúpia. A volúpia - clama o meu sonho -, não o amor! A morte e o amor, não, isso não rima; eles dão um poema insípido e falso! O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte do que ela. Só ele, e não a razão, inspira pensamentos bondoso. Também a forma não consta senão de amor e de bondade, a forma e a civilização de uma coletividade sensata e amável e de um belo Estado humano, na recordação silenciosa da ceia sangrenta. Ah, sim, isso se chama sonhar com clareza e 'reinar' bem!"

Thomas Mann
(Em "A Montanha Mágica", Herbert Caro (trad.), Círculo do livro 1952, pg 587-598)


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O homem, sua natureza, sua filosofia

"O homem é um ser racional e, como tal, recebe da ciência seu adequado alimento e nutrição. Tão estreitos, porém, são os limites do entendimento humano que pouca satisfação pode ser esperada nesse particular, tanto no tocante à extensão quanto à confiabilidade de suas aquisições. Além de um ser racional, o homem é também um ser sociável, mas tampouco pode desfrutar sempre de companhia agradável e divertida, ou continuar a sentir por ela a necessária atração. O homem também é um ser ativo, e é forçado, por essa inclinação e pelas variadas necessidades da vida humana, a dedicar-se aos negócios e ofícios; mas a mente exige algum descanso e não pode corresponder sempre a sua tendência ao trabalho e à diligência. Parece, então, que a natureza estipulou uma espécie mista de vida como a mais adequada aos seres humanos, e secretamente os advertiu a não permitir que nenhuma dessas inclinações se imponha excessivamente, a ponto de incapacitá-los para outras ocupações e entretenimentos. "Satisfaz tua paixão pela ciência", diz ela, "mas cuida para que essa seja uma ciência humana, com direta relevância para a prática e a vida social. O pensamento abstruso e as investigações recônditas são por mim proibidos e severamente castigados com a pensativa tristeza que ensejam, com a infindável incerteza em que serás envolvido e com a fria recepção dedicada a tuas pretensas descobertas, quando comunicadas. Sê um filósofo, mas, em meio a toda tua filosofia, não deixes de ser um homem."

David Hume
(Em "Investigações sobre o Entendimento Humano e sobre os Princípios da Moral", José Oscar de Almeida Marques (trad.), Editora UNESP, 2003 -  Parte I: "Uma Investigação sobre o Entendimento Humano", seção I, parágrafo 6)

sábado, 14 de julho de 2012

Pecar é humano

"Desejar que o pecado não tivesse sobrevindo no mundo é degradar a humanidade a algo menos perfeito. O pecado sobreveio, mas ao reconhecê-lo e ao nos rebaixarmos diante dele, elevamo-nos acima do que éramos antes."

Soren Kierkegaard
(Traduzido livremente de "Either/Or: A Fragment of Life", Alastair Hannay (trad.), Penguin Classics 2004, Kindle Location 7215 - Cap. 1 volume II)

terça-feira, 10 de julho de 2012

O tédio e a ociosidade na visão estética de mundo

"É sempre mais prudente guardar as próprias regras de prudência para si mesmo. Discípulos, portanto, não os quero, mas se talvez alguém estiver presente no meu leito de morte, e se eu estiver certo do meu fim, talvez acabe em um surto delirante de filantropia por sussurrar-lhe meus ensinamentos, sem saber se com isso fiz-lhe um serviço ou um desserviço. Há tanta falação sobre o homem ser um animal social; basicamente ele não passa de uma besta predadora, como se pode assegurar considerando-lhe os dentes.

Então, toda essa balela de sociabilidade é, em parte, só hipocrisia herdada, em parte, um engano calculado. As pessoas são, sem exceção, chatas, entediantes. A palavra em si indica porém a possibilidade de uma subdivisão. 'Entediante' pode ser dito daquela pessoa que entedia os outros assim como pode ser dito daquele que entedia a si mesmo. Quem entedia os outros são os plebeus, a grande massa, o trem sem fim da humanidade em geral. Quem entedia a si mesmo são os nobres, os eleitos; e - que curioso - quem não entedia a si mesmo entedia aos outros e quem entedia a si mesmo diverte aos outros. Aqueles que não se entediam são aqueles que estão ocupados no mundo de um jeito ou de outro, e que justamente por isso são tão entediantes, os mais chatos de todos. Esta espécie de vida animal com certeza não é fruto do desejo do homem ou do prazer da mulher. Como todas as outras formas de vida inferior, é caracterizada pelo alto grau de fertilidade e multiplica-se sem limite. É inconcebível também que a natureza precise de nove meses para produzir tais criaturas que se poderia supor serem produzidas a granel. A outra classe de seres humanos, os eleitos, são aqueles que entediam a si mesmos. Normalmente eles divertem ao povo: quanto mais profundo o seu tédio consigo mesmo, mais poderoso se torna uma fonte de diversão para os outros; até que o tédio atinge seu ápice, seja por se morrer de tédio (forma passiva) ou por enfiar-se uma bala na cabeça só por curiosidade (forma ativa).

Diz-se que a ociosidade é a causa de todo mal. Para preveni-la recomenda-se o trabalho. Porém é fácil ver, do remédio prescrito e da causa temida, que todo este ponto de vista é completamente plebeu. A ociosidade em si não é de nenhuma forma a fonte do mal; pelo contrário, a ociosidade é verdadeiramente um modo de vida divino, desde que não seja corrompida pelo tédio. Certamente a ociosidade pode levar-lhe à falência, mas de tais coisas o homem de natureza nobre não tem medo; o que ele teme é o tédio. Os deuses do Olimpo não eram entediados, eles prosperavam em feliz ociosidade. Uma bela jovem que não dança, nem cozinha, nem lê, nem produz música, é feliz em sua ociosidade porque não é entediada. Então, longe da ociosidade ser a raiz de todo mal, ela é o verdadeiro bem. A fonte do mal é o tédio, e é ele que deve ser mantido longe. Pode-se dizer que aquele que não aprecia a ociosidade ainda não se elevou a nível humano. Há um tipo de atividade sem descanso, que mantém a pessoa longe do mundo do espírito, colocando-a em uma mesma classe com os animais, na qual por instinto ele deve sempre seguir marchando em frente. Assim, encontram-se essas pessoas com um dom extraordinário para transformar tudo em negócio, cuja própria vida é um negócio, que se apaixonam e casam e escutam uma piada e admiram uma obra de arte com o mesmo sentimento zeloso de negociante que possuem quando estão no escritório. O proverbio latino otium est pulvinar diaboli [a ociosidade é o travesseiro do diabo] é perfeitamente correto, mas quando não se está entediado, o diabo não tem tempo de agarrar tal travesseiro. Na medida em que as pessoas pensam que é característico do homem o trabalho, a ociosidade e a produção são propriamente opostas a si mesmas. Minha própria assunção é que a característica do homem é divertir a si mesmo; meus opostos são portanto não menos corretos."

Soren Kierkegaard
(Traduzido livremente de "Either/Or: A Fragment of Life", Alastair Hannay (trad.), Penguin Classics 2004, Kindle Location 3810 - Cap. 6)



domingo, 10 de junho de 2012

Contingências irrevogáveis da História

"Os atos de Napoleão e de Alexandre, dos quais uma simples palavra podia, na aparência, soltar ou conter o acontecimento, tinham, com efeito, tão pouco peso quanto os do simples soldado que a sorte ou o recrutamento obrigava a fazer a campanha. Não podia ser de outro modo, porque, para que a vontade de Napoleão ou de Alexandre, árbitros aparentes da sorte, se cumprisse, era preciso o concurso de inúmeras circunstâncias uma vez que, excluída uma delas, nada podia acontecer. Era indispensável que milhões de homens, entre cujas mãos se encontrava a força operante - soldados para atirar, para transportar os víveres e os canhões - consentissem todos em cumprir a vontade daqueles dois indivíduos fracos e isolados e que fossem determinados por uma quantidade inúmera de causas diversas e complexas.

Diante de certos fenômenos históricos, desnudados de sentido, ou antes, cujo sentido nos escapa, o recurso ao fatalismo é indispensável. Com efeito, quanto mais nossa razão se esforça por explicá-los, tanto mais nos parecem desarrazoados, incompreensíveis. 

Todo homem vive para si mesmo, utiliza sua liberdade para atingir fins particulares, sente em todo o seu ser que pode ou não realizar tal ou qual ato; mas, desde que age, seu ato realizado em tal momento da duração torna-se irrevogável e pertence doravante à História, onde ele não mais parece livre, mas regido pela fatalidade.

A vida humana tem duas faces. Há de uma parte a vida individual, que é tanto mais livre quanto seus interesses são mais abstratos; há por outra parte a vida elementar, gregária, em que o homem deve inevitavelmente submeter-se às leis que lhe são prescritas.

O homem vive conscientemente por si mesmo, mas participa inconscientemente na prossecução dos fins históricos da humanidade inteira. O ato realizado é irrevogável e, por sua concordância com milhões de outros atos realizados por outrem, assume um valor histórico. Quanto mais alto está colocado o homem na escala social, mais importantes são os personagens com os quais entretém relações, maior também é seu poder sobre o próximo, mais cada um de seus atos se reveste dum caráter evidente de necessidade, de predestinação.

'O coração dos reis estão na mão de Deus'.

O rei é escravo da História.

A História, isto é, a vida inconsciente, geral, gregária da humanidade, faz cada minuto da vida dos reis servir à realização de seus desígnios."

Leon Tolstoi
(Em "Guerra e Paz" - volume II, tradução Oscar Mendes, Itatiaia 1997, pg 11)

domingo, 20 de maio de 2012

Sem pecados

"Que os outros se queixem da maldade de nossa época; minha queixa é que ela é trivial. Pois não há paixão. Os pensamentos das pessoas são finos e leves como rendas, e elas mesmas são tão insignificantes como rendeiras. Os pensamentos em seus corações são muito triviais para serem pecaminosos. Para um verme talvez  pudessem assim ser considerados, mas não para seres humanos moldados à imagem de Deus. Os seus desejos são estúpidos, suas paixões preguiçosas. Eles cumprem seus deveres, estes mercenários, mas como os Judeus, eles pensam que por melhor que o bom Deus mantiver Sua palavra, eles ainda podem se safar enganando-O um pouquinho. Vergonha! É por isto que minha alma sempre se volta ao Velho Testamento e a Shakespeare. Lá ao menos fala-se de seres humanos. Lá as pessoas odeiam, amam, matam seus inimigos e amaldiçoam seus descendentes por todas as próximas gerações. Lá as pessoas pecam!"


Soren Kierkegaard
(Traduzido livremente de "Either/Or: A Fragment of Life", Alastair Hannay (trad.), Penguin Classics 2004, Kindle Location 807)
 


terça-feira, 15 de maio de 2012

Carlos Fuentes, você sobreviverá


"Você sobreviverá: tornará a sentir o toque dos lençóis e saberá que sobreviveu, apesar do tempo e do movimento que a cada instante encurtam-lhe a sorte: entre a paralisia e o desenfrear está a linha da vida: a aventura; imaginará a maior das seguranças, não mexer nunca: imaginar-se-á imóvel, resguardado do perigo, do acaso, da incerteza; sua quietude não deterá o tempo que corre em você, apesar de você inventá-lo e medi-lo, o tempo que nega a sua imobilidade e submete você a seu próprio perigo de extinção: aventureiro, medirá a sua velocidade com a do tempo:

o tempo que inventará para sobreviver, para fingir a ilusão de uma permanência maior na terra: o tempo que seu cérebro criará à força de perceber essa alternância de luz e de trevas no quadrante do sonho; à força de reter essas imagens da placidez ameaçada pelos cúmulos concentrados das nuvens, o anúncio do trovão, a posteridade do raio, a descarga torrencial da chuva, a aparição certa do arco-íris; à força de escutar as chamadas cíclicas dos animais na montanha; à força de gritar os sinais do tempo: ganido do tempo da guerra, ganido do tempo do luto, ganido do tempo da festa; à força, por fim, de dizer o tempo, de falar o tempo, de pensar o tempo inexistente de um universo que não o conhece porque nunca começou e jamais terminará: não teve princípio, não terá fim e não sabe que você inventará uma medida do infinito, uma reserva de razão:

você inventará e medirá um tempo que não existe

você saberá, discernirá, julgará, calculará, imaginará, preverá, acabará pensando que não terá outra realidade senão a criada por seu cérebro e aprenderá a dominar sua violência para dominar seus inimigos: aprenderá a esfregar duas madeiras até incendiá-las porque precisará jogar uma teia à entrada de sua cova para espantar os animais que não o distinguirão, que não diferenciarão a sua carne da carne de outros animais e terá que construir mil templos, ditar mil leis, escrever mil livros, adotar mil deuses, pintar mil quadros, fabricar mil máquinas, dominar mil povos, romper mil átomos para tornar a jogar sua teia acesa na entrada da caverna, 

e fará tudo isso porque pensa, porque terá desenvolvido uma congestão nervosa no cérebro, uma rede espessa capaz de obter informação e transmiti-la de frente para trás: sobreviverá, não por ser o mais forte, mas por esse acaso escuro de um universo cada vez mais frio, no qual só sobreviverão os organismos que saibam conservar a temperatura do corpo ante as mudanças do meio, os que concentrarem essa massa nervosa frontal e possam predizer o perigo, buscar o alimento, organizar seu movimento e dirigir seu nado no oceano redondo, proliferante, atestado das origens; ficarão no fundo do mar as espécies mortas e perdidas, suas irmãs, milhões de irmãs que não emergiram na água com suas cinco estrelas contráteis, seus cinco dedos cravados na outra margem, na terra firme, nas ilhas da aurora; emergirá com a ameba, o réptil e o pássaro atravessados: as aves que se atirarão dos novos cumes para estatelar-se nos novos abismos, aprendendo com o fracasso, enquanto os répteis voam e a terra esfria; sobreviverá com as aves protegidas pelas penas, vestidas pela velocidade de seu calor, enquanto os répteis frios dormem, hibernam, e por fim morrem e você fincará as garras na terra firme, nas ilhas da aurora, e suará como um cavalo, e trepará nas árvores novas com sua temperatura constante e descerá com suas células cerebrais diferenciadas, suas funções vitais automatizadas, suas constantes de hidrogênio, açúcar, cálcio, água, oxigênio: livre para pensar além dos sentidos imediatos e das necessidades vitais 

descerá com seus dez milhões de células cerebrais, com sua pilha elétrica na cabeça, plástico, mutável, para explorar, satisfazer sua curiosidade, propor-se metas, realizá-las com o mínimo esforço, evitar as dificuldades, prever, aprender, esquecer, lembrar, unir idéias, reconhecer formas, somar pontos à margem deixada livre pela necessidade, subtrair sua vontade às atrações e rejeições do meio físico, buscar condições favoráveis, medir a realidade com o critério do mínimo, desejar secretamente o máximo, não expor-se, apesar de tudo, à monotonia da frustração; 

acostumar-se, moldar-se às exigências da vida em comum: 

desejar: desejar que seu desejo e o objeto desejado sejam a mesma coisa; sonhar com a realização imediata, na identificação sem separações do desejo e do desejado: 

reconhecer-se a si mesmo: 

reconhecer os outros e desejar que eles o reconheçam: e saber que se opõe a cada indivíduo, porque cada indivíduo é mais um obstáculo para alcançar seu desejo: 

escolherá, para sobreviver escolherá, escolherá entre espelhos infinitos um só, somente um que refletirá irrevogavelmente, que encherá de uma sombra negra os outros espelhos, você os matará antes de dar-se, mais uma vez, esses caminhos infinitos para a escolha: 

decidirá, escolherá um desses caminhos, sacrificará os outros: sacrificar-se-á ao escolher, deixará de ser todos os outros homens que poderia ter sido, quererá que outros homens - outro - cumpra por você a vida que mutilou ao escolher: ao escolher sim, ao escolher não, ao permitir que não seu desejo, idêntico à sua liberdade, mas seu interesse, seu medo, seu orgulho, lhe indicassem um labirinto: 

temerá o amor, nesse dia: 

mas poderá recuperá-lo: descansará com os olhos fechados, mas não deixará de ver, não deixará de desejar, porque assim fará sua a coisa desejada: 

a memória é o desejo satisfeito
hoje que sua vida e seu destino são a mesma coisa"



Carlos Fuentes  (11/11/1928 - 15/05/2012)
(Em "A morte de Artemio Cruz", Inez Cabral (trad.), Record 1964, pg 156-159)

sábado, 12 de maio de 2012

O Valor do humano

"O ser humano é apenas uma gramínea. Mas uma gramínea pensante. O universo não tem nenhuma necessidade de pegar em armas e destruí-lo: um vapor, uma gota d'água é suficiente para matá-lo. E, apesar de tudo, se o universo fosse de fato destruí-lo, o ser humano anda assim seria mais nobre que seu assassino, pois ele é consciente da sua morte, bem como da vantagem que o universo tem sobre ele. Enquanto que o universo disso nada sabe."

Blaise Pascal
(Traduzido livremente de "Pensèes", A. J.Krailsheimer (tradutor do alemão), Harmondsworth, 1966; pg 136)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Morte em tempos de ignorância

"A morte não está
na impossibilidade de comunicar,
mas em não mais poder ser compreendido."

Pier Paolo Pasolini
(Traduzido livremente de "Poesia in forma di rosa", 1974 )

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sobrevida sem valor

"Aquele que busca a sobrevivência assassinando a humanidade de outros seres humanos sobrevive à morte de sua própria humanidade."

Zygmunt Bauman
(Em "Amor Líquido", trad. Carlos Alberto de Medeiros, Jorge Zahar 2004)

sábado, 28 de abril de 2012

Amor-próprio e amor ao próximo

"Amor-próprio - o que significa isso? O que eu amo 'em mim mesmo'? O que eu amo quando amo a mim mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais sejam os próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes - mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos se separam e seguimos por conta própria.

É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se 'agarrar à vida', a tentar a todo custo permanecer vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou, melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo, nossos primos animais são mestres e experientes, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles domesticados que nós, seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência e não à deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.

A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida. Pois o que amamos em nosso amor-próprio é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.

Em suma: para termos amor-próprio precisamos ser amados. A recusa do amor - a negação do status de objeto digno do amor - alimenta a auto-aversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos. E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança, que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim temos o direito de nos entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos ouvem com atenção, com um interesse que sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em consideração. Se os outros me respeitam, então obviamente de haver 'em mim' - ou não deve? - algo que só eu lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros - não existem? - que ficariam satisfeitos e gratos por isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente substituída e descartada. Eu 'faço a diferença' para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância - e isso não é apenas um vôo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.

 Se isso é o que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a 'amar o próximo como a si mesmo' (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a pressupor que o próximo de fato representa esses valores - ao menos até prova em contrário. Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um - o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas."

Zygmunt Bauman
(Em "Amor Líquido", trad. Carlos Alberto de Medeiros, Jorge Zahar 2004)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Grandes ideias nada inocentes

"Os grandes crimes, frequentemente, partem de grandes ideias. Poucas grandes ideias se mostram completamente inocentes quando seus inspirados seguidores tentam transformar a palavra em realidade - mas algumas quase nunca podem ser abraçadas sem que os dentes se descubram e os punhais se agucem."

Zygmunt Bauman
(Em "O Mal-estar da Pós-Modernidade", trad. Mauro Gama, Jorge Zahar 1998, pg 13)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma relato pela humildade

"Minha mãe sempre me alertou para não pensar que eu poderia prever ou controlar o futuro. Um dia ela contou-me o incidente que a convertera para esta crença. Dizia respeito à sua irmã, Sabina, sobre a qual ela ainda fala, mesmo que mais de sessenta e cinco anos tenham se passado desde que ela a viu pela última vez. Sabina tinha dezessete. Minha mãe, que a idolatrava assim como os irmãos mais novos por vezes idolatram os mais velhos, tinha quinze. Os nazistas tinham invadido a Polônia e meu pai, da periferia pobre da cidade, mudara-se para o subterrâneo e, como já disse, acabaria depois em Buchenwald. Minha mãe, que não conhecia ele ainda, vinha da parte rica da cidade e fora mandada para um campo de trabalhos forçados. Lá ela virou enfermeira, cuidava de pacientes sofrendo de tifo. A comida era escarça, e a morte aleatória parecia sempre próxima. Para ajudar a proteger a minha mãe dos perigos permanentes de sua função, Sabina concordou com um plano. Ela tinha um amigo que era membro da Polícia Judia - um grupo, geralmente desprezado pelos prisioneiros, que obedecia aos comandos dos alemães e ajudava a manter a ordem no campo. O amigo de Sabina ofereceu-se para se casar com ela - no papel somente - de modo que Sabina poderia obter alguma proteção com tal posição. Pensando que esta proteção poderia estender-se à minha mãe, Sabina concordou. Por um tempo até que funcionou. Então algo aconteceu e os nazistas de repente voltaram-se contra a Polícia Judia. Eles mandaram um número de oficiais para a câmara de gás junto de suas esposas - incluindo o marido de Sabina e a própria Sabina. Minha mãe hoje viveu por muito mais anos na ausência de Sabina do que em sua presença, mas a morte de sua irmã ainda a aflige. Para ela, esta história mostra que o esforço de se traçar planos é inútil, que não faz nenhum sentido planejar. Eu não concordo. Penso que fazer planos é importante, desde que os façamos com os olhos abertos. Mas a experiência da minha mãe ensinou-me que devemos identificar e apreciar a boa sorte que nós temos e reconhecer os eventos aleatórios que contribuem para o nosso sucesso. Ela também ensinou-me a aceitar aqueles eventos fortuitos que podem nos causar sofrimento. E, acima de tudo, ensinou-me a apreciar a ausência da má sorte, a ausência do que é capaz de nos levar para baixo, a ausência de doenças, da guerra, da fome e de todos os acidentes que - ainda - não nos atingiram."

Leonard Mlodinow
(Traduzido livremente de "The Drunkard's Walk", Pantheon Books 2008, pgs 218-219 )

domingo, 8 de abril de 2012

Que fez o diabo à imagem do homem

[ Satã, à vista do Jardim do Éden, onde tentará executar sua missão contra Deus e que resultará na queda do homem, cai em dúvidas: o medo, a inveja, a desesperação...]


"O que, se não a oferenda de graças, poderia ser mais banal
A mais fácil das retribuições, pagá-lo em gratidão,
Tão devida! Mas todo o seu bem em mim transformou-se em mal
E na malícia, elevado a tais posições, rejeitei a sujeição,
Pensei que ainda mais um passo à cimeira
Levar-me-ia a maiores alturas, até assim liquidar
A imensa dívida de gratidão que não conhece fronteira,
Dívida à minha alma tão opressiva,
Sempre sendo paga, mas sempre sendo devida;
Esquecido de que dele sempre recebi,
Não compreendi que a uma mente agradecida,
A dívida não pesa, mas é de pronto compensada,
Devida mas ao mesmo tempo debitada:
Onde está, nisto tudo, tamanha opressão?
Oh, se este poderoso Destino tivesse feito
De mim Anjo inferior, eu teria então nos céus
Feliz permanecido; sem carregar no coração
Esta desmedida esperança que desperta a ambição.
Mas o que digo? Algum outro Poder tão grande
Teria do mesmo modo em meu lugar procedido
E eu, ainda que inferior, para o seu lado seria seduzido;
E pois outros Poderes tão elevados quanto eu
Teriam, por sua vez, a todas tentações resistido,
sem deixar-se cair em semelhante e nefasto breu.
Não tinha eu este mesmo poder de, livre, nos céus permanecer?
Tinha sim: pois então quem ou o que acuso por minha mal-andança?
O amor dos céus que a todos fora concedido em total concordância?
Pois que seja então este amor amaldiçoado, amor ou ódio,
Para mim é o mesmo, ambos trazem eterno desgosto.
Não, amaldiçoado seja eu; já que contra a divina vontade,
Escolhi livremente o que agora tão justamente sofro;
Ai de mim, miserável! Para onde devo fugir,
Deste infinito sofrimento, deste infinito desespero?
Seja qual for o caminho, é o inferno; pois eu sou o inferno;
E no mais fundo para mim resta sempre o ainda mais profundo
Pronto a devorar-me e a me cobrir com seu negro véu,
Que o inferno que agora sofro parecerá a mim um céu."

John Milton
(Traduzido livremente de "Paradise Lost", Livro IV, linhas 45-78)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Uma lição de História (talvez a maior de todas)

[Contrariando ainda uma vez o hábito deste blog, transcrevo um pedaço mais longo de um livro por julgar que não poderia usá-lo aqui de modo diverso.]




"Para Kim não é nenhum desgosto que Ferriera não compreenda: a homens como Ferriera deve-se falar em termos exatos, deve-se dizer "a, b, c"; as coisas são certas ou são "bobagens", não existe nenhuma zona ambígua e obscura para eles. Mas Kim não pensa isto por sentir-se superior a Ferriera: a sua meta é poder pensar como Ferriera, não ter outra realidade exceto aquela de Ferriera, todo o resto não serve.

- Bem, te saúdo. - Chegaram a uma encruzilhada. Agora Ferriera seguirá para o Gamba e Kim irá até o Baleno. Devem inspecionar todos os destacamentos naquela noite, antes da batalha, e a separação neste ponto é necessária.


Todo o resto não serve. Kim caminha só pelas trilhas, carregando, presa nas costas, aquela arma que parece uma muleta quebrada: o sten. Todo o resto não serve. Os troncos das árvores no escuro têm formas humanas. O homem carrega dentro de si os seus medos de menino por toda a vida. "Talvez, - pensa Kim, - se não fosse comissário de uma brigada eu teria medo. Chegar a não mais ter medo, esta é a meta final do homem".


Kim é lógico, quando analisa a situação dos destacamentos junto aos demais comissários, mas quando pensa sozinho, andando pelas trilhas, as coisas parecem-lhe misteriosas e mágicas, a vida dos homens parece cheia de milagres. Temos ainda a cabeça cheia de milagres e de magia, pensa Kim. E parece-lhe que está a caminhar em um mundo de símbolos, como o pequeno Kim no meio da India, no livro de Kipling tantas voltas relido quando menino. "Kim... Kim... Quem é Kim?"


Por que ele caminha naquela noite pela montanha, por que prepara uma batalha, com razões de vida e morte, depois da sua melancólica infância de menino rico, depois de sua adolescência de garoto tímido? Por vezes parece-lhe ser vítima de um furioso desequilíbrio, de agir tomado de histeria. Não, os seus pensamentos são lógicos, pode analisar qualquer coisa com clareza absoluta. Mas não é um homem sereno. Serenos eram seus pais, os grandes pais burgueses que criaram a riqueza. Serenos são os proletários que sabem aquilo que querem, os agricultores que agora vigiam como sentinelas as vilas do interior, serenos são os soviéticos que decidiram tudo e agora fazem a guerra com método não porque é bela, mas porque é necessária. Os bolcheviques! A União Soviética talvez seja um país sereno. Talvez não haja nenhuma miséria humana por lá. Será Kim sereno algum dia? Talvez um dia consigamos todos atingir a serenidade, e não mais entenderemos muitas coisas porque compreenderemos tudo.


Mas aqui os homens ainda possuem olhos turvos e faces ouriçadas, e Kim é afeicionado a tais homens, à revolta que se move neles. Aquele menino do destacamento do Dritto, como se chama? Pin? Com aquela raiva em seu olhar lentiginoso, inclusive quando ri... Dizem que é irmão de uma prostituta. Por que combate? Não sabe ele que combate para não ser mais irmão de uma prostituta. E aqueles quatro cunhados "terroni" combatem para não serem mais uns "terroni", pobres emigrados, tratados como estrangeiros. E aquele policial combate para não se sentir mais um policial, alguém que persegue seus semelhantes. O Cugino, o gigantesco, bom Cugino... dizem que quer se vingar de uma mulher que o traiu... Todos temos uma ferida secreta para redimir por qual combatemos. Também Ferriera? Talvez até mesmo Ferriera: a raiva de não poder fazer com que o mundo vá do jeito que ele quer. O Lupo Rosso, não: para Lupo Rosso tudo que ele quer é possível. É necessário querer as coisas justas: este é o trabalho político, o trabalho do comissário. E aprender que é justo aquilo que se quer: também este é o trabalho político, trabalho de comissário.


Um dia talvez eu não entenderei mais estas coisas, pensa Kim, tudo sará sereno em mim e compreenderei os homens de um outro modo, mais justo, talvez. Por que "talvez"? Bem, então não mais direi talvez, não terei mais nenhum talvez em mim. E mandarei fuzilar Dritto depois. Agora estou muito ligado a eles, às suas vidas. Também a Dritto: sei que Dritto deve sofrer terrivelmente por aquele seu hábito de fazer o papel de bastardo a todo custo. Não há nada mais doloroso no mundo do que ser o vilão. Um dia, ainda menino, fechei-me no quarto por dois dias sem comer. Sofri terrivelmente, mas não abri a porta e vieram me pegar com uma escada pela janela. Tinha uma vontade enorme de ser compadecido. O Dritto faz o mesmo. Mas sabe que o fuzilarão. Quer ser fuzilado. É uma vontade que vem, por vezes, aos homens. E Pelle, o que faz a esta hora Pelle?


Kim caminha por um bosque de lariços e pensa em Pelle lá na cidade, com a cabeça de morto sob o chapéu, que gira em patrulha durante o toque de recolher. Será só, Pelle, com seu ódio anônimo, equivocado, só com sua traição que lhe corrói por dentro e faz com que ele seja ainda mais malvado para se justificar. Disparará aos gatos, com raiva, e os burgueses sussurrarão nos leitos, acordando com os disparos. Kim pensa na coluna de alemães e fascistas que talvez já esteja avançando por sobre o vale, em direção ao nascer do sol que trará a morte sobre eles a partir das cristas das montanhas. É a coluna dos gestos perdidos: agora um soldado, acordando com o balanço do caminhão, pensa: te amo, Kate. Entre seis ou sete horas morrerá, matar-lhe-ão; mesmo se não tivesse pensado: te amo, Kate - teria sido o mesmo, tudo o que ele faz e pensa é perdido, cancelado da história.


Eu, ao invés, caminho por um bosque de lariços e cada um dos meus passos é história; eu penso: te amo, Adriana - e isto é história, possui grandes consequencias, agirei amanhã na batalha como um homem que esta noite pensou: te amo, Adriana. Talvez não farei nada importante, mas a história é feita de pequenos gestos anônimos, talvez amanhã morrerei, talvez até mesmo antes daquele alemão, mas todas as coisas que farei antes de morrer e a minha própria morte serão pedaços de história, e todos os pensamentos que estou fazendo agora influirão sobre a minha história amanhã, sobre a história do amanhã do gênero humano. Certo, poderia agora, ao invés de fantasiar como menino, estudar mentalmente os particulares do ataque, a disposição das armas e das esquadras. Mas gosto muito de pensar nestes homens, de estudá-los, descobrir coisas sobre eles. O quê farão depois, por exemplo? Reconhecerão na Itália do pós-guerra algo feito por eles? Compreenderão o sistema que eles deverão usar para continuar nossa luta, a longa luta sempre diversa do resgate humano? Lupo Rosso compreenderá, digo eu: sabe-se lá como fará a colocar em prática, assim aventuroso e engenhosos, sem haver mais possibilidades de ações surpresas e fugas. Deveriam ser todos como Lupo Rosso. Deveremos ser todos como Lupo Rosso. Mas haverá quem continuará com seu furor anônimo, retornará individualista, e por isso estéril: cariá na delinquencia, a grande máquina dos furores perdidos, esquecerá que a história está caminhando ao lado deles, que um dia respirou através de seus dentes cerrados. Os ex-fascistas dirão: os partigianos! Eu dizia! Eu entendi súbito! Mas não terão entendido nada, nem antes, nem depois.


Kim um dia será sereno. Tudo é agora claro para ele: o Dritto, Pin, os cunhados calabreses. Sabe como deve se comportar com um e com o outro, sem medo e nem piedade. Às vezes, caminhando na noite, a névoa dos ânimos se condensa em torno, como a névoa do ar, mas ele é um homem que analisa, "a, b, c", dirá aos comissários do destacamento, é um "bolchevique", um homem que domina a situação. Te amo, Adriana.


O vale é cheio de névoa e Kim caminha por uma costa arenosa como as margens de um lago. Kim... Kim... quem é Kim? O comissário da brigada sente como se fosse o herói do romance lido na juventude: Kim, o rapaz meio inglês meio indiano que viaja através da India com o velho Lama Rosso, para encontra o rio da purificação. Duas horas atrás falava com aquele Barrabás do Dritto, com o irmãozinho da prostituta, agora chega ao destacamento do Baleno, o melhor da brigada. É a esquadra dos russos, com Baleno, ex-prisioneiro, fugido dos trabalhos de fortificação dos confins.


- Quem vai lá? - É a sentinela: um russo.

Kim diz o seu nome.
- Traz novidades, comissário?
É Aleksjéi, filho de um mugik, estudante de engenharia.
- Amanhã teremos uma batalha, Aleksjéi.
- Batalha? Cem fascistas kaput?
- Não sei quantos kaput, Aleksjéi.
Não sei bem nem mesmo quantos vivos.
- Sal e tabaco, comissário.
"Sal e tabaco" é a expressão italiana que fez mais impressão em Aleksjéi, repete-a sempre como se fosse uma saudação, votos de boa sorte.
- Sal e tabaco, Aleksjéi.

Amanhã será uma grande batalha.  Kim é sereno. "a, b, c", dirá. E continua a pensar: te amo, Adriana. Isto, nada mais do que isto, é a história."


Italo Calvino
(Traduzido livremente de "Il Sentiero dei nidi di ragno", Mondatori 2002, pgs 116-120) 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Adaptação

"O que é extraordinário sobre o ser humano é a nossa capacidade de adaptação às mais diversas demandas; é a enorme dependência da adaptação ao aprendizado e consequentemente à cultura. A variabilidade de linguagens humanas pode não ser maior que a variabilidade das asas de borboletas, mas estas são determinadas geneticamente entre diferentes tipos de borboletas, enquanto qualquer criança de qualquer lugar do mundo pode aprender qualquer língua humana. Este fato é ainda mais extraordinário que a própria linguagem."

Kenneth Kaye
(Traduzido livremente de "The Mental and Social Lifes of Babies", Chicago Univ. Press 1982, pg 27)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Camus, senhores, Albert Camus!

"Existem portanto para o homem uma ação e um pensamento possíveis no nível médio que é o seu. Qualquer empreendimento mais ambicioso revela-se contraditório. O absoluto não é alcançado, nem muito menos criado através da história. A política não é a religião; do contrário, não passa de inquisição. Como a sociedade definiria um absoluto? Talvez cada qual busque, por todos, esse absoluto. Mas a sociedade e a política têm apenas o encargo de ordenar os negócios de todos para que cada qual tenha o lazer e a liberdade dessa busca comum. A história não pode mais ser erigida como objeto de culto. Ela não é mais que uma oportunidade, que deve ser tornada profícua por uma revolta vigilante.

'A obsessão pela colheita e a indiferença em relação à história', escreve admiravelmente René Char, 'são as duas extremidades de meu arco'. Se o tempo da história não é feito do tempo da colheita, a história não é mais que a sombra fugaz e cruel onde o homem não encontra mais seu quinhão. Quem se entrega a essa história não se entrega a nada e, por sua vez, nada é. Mas quem se dedica ao tempo de sua vida, entrega-se à terra, dela recebendo a colheita que semeia e nutre novamente. São enfim aqueles que sabem, no momento desejado, revoltar-se também contra a história que a fazem progredir. Isso supõe uma interminável tensão e a serenidade crispada de que nos fala o mesmo poeta. Mas a verdadeira vida está presente no coração dessa dicotomia. Ela é o próprio dilaceramento, o espírito que paira acima dos vulcões de luz, a loucura pela equidade, a intransigência extenuante da medida. Para nós, o que ressoa nos confins dessa longa aventura revoltada não são fórmulas de otimismo, que não têm utilidade no extremo de nossa desgraça, mas sim palavras de coragem e de inteligência, que, junto ao mar, são até mesmo virtude.


Nenhuma sabedoria atualmente pode pretender dar mais. A revolta confronta incansavelmente o mal, do qual só lhe resta tirar um novo ímpeto. O homem pode dominar em si tudo aquilo que deve ser dominado. Deve corrigir na criação tudo aquilo que pode ser corrigido. Em seguida, as crianças continuarão a morrer sempre injustamente, mesmo na sociedade perfeita. Em seu maior esforço, o homem só pode propor-se uma diminuição aritmética do sofrimento do mundo. Mas a injustiça e o sofrimento permanecerão e, por mais limitados que sejam, não deixarão de ser um escândalo. O 'por quê?' de Dimitri Karamazov continuará a ecoar; a arte e a revolta só morrerão com a morte do último homem.


Há sem dúvida um mal que os homens acumulam em seu desejo apaixonado de unidade. Mas um outro mal está na origem desse movimento desordenado. Diante desse mal, diante da morte, o homem, no mais profundo de si mesmo, clama por justiça. O cristianismo histórico só respondeu a esse protesto contra o mal pela anunciação do reino e, depois, da vida eterna, que exige a fé. Mas o sofrimento desgasta a esperança e a fé; ele continua então solitário e sem explicação. As multidões que trabalham, cansadas de sofrer e morrer, são multidões sem deus. Nosso lugar, a partir de então, é a seu lado, longe dos antigos e dos novos doutores. O cristianismo histórico adia para além da história a cura do mal e do assassinato, que, no entanto, são sofridos na história. O materialismo contemporâneo julga, da mesma forma, responder a todas as perguntas. Mas, escravo da história, ele aumenta o domínio do assassinato histórico, deixando-o ao mesmo tempo sem justificação, a não ser no futuro, que, ainda uma vez, exige a fé. Em ambos os casos, é preciso esperar e, enquanto isso, os inocentes não deixam de morrer. Há vinte séculos, a soma total do mal não diminuiu no mundo. Nenhuma parúsia, quer divina ou revolucionária, se realizou. Uma injustiça continua imbricada em todo sofrimento, mesmo o mais merecido aos olhos dos homens O longo silêncio de Prometeu diante das forças que o oprimem continua a gritar. Mas, nesse ínterim, Prometeu viu os homens se voltarem também contra ele, ridicularizando-o. Espremido entre o mal humano e o destino, o terror e o arbítrio, só lhe resta sua força de revolta para salvar do assassinato aquilo que ainda pode ser salvo, sem ceder ao orgulho da blasfêmia.


Compreende-se então que a revolta não pode prescindir de um estranho amor. Aqueles que não encontram descanso nem em Deus, nem na história estão condenados a viver para aqueles que, como eles, não conseguem viver: para os humilhados. O corolário do movimento mais puro da revolta é então o grito dilacerante de Karamazov: se não forem salvos todos, de que serve a salvação de um só? Dessa forma, condenados católicos, nas masmorras da Espanha, recusam hoje a comunhão, porque os padres do regime tornaram-na obrigatória em certas prisões. Também eles, únicas testemunhas da inocência crucificada, recusam a salvação, se seu preço é a injustiça e a opressão. Essa louca generosidade é a da revolta, que oferta sem hesitação sua força de amor, e recusa peremptoriamente a injustiça. Sua honra é de não calcular nada, distribuir tudo na vida presente, e aos seus irmãos vivos. Desta forma, ela é pródiga para os homens vindouros. A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente.


Com isso, a revolta prova que ela é o próprio movimento da vida e que não se pode negá-la sem renunciar à vida. Seu grito mais puro, a cada vez, faz com que um ser se revolte. Portanto, ela é amor e fecundidade ou então não é nada. A revolução sem honra, a revolução do cálculo, que, ao preferir o homem abstrato ao homem de carne e osso, nega a existência tantas vezes quanto necessário, coloca o ressentimento no lugar do amor. Tão logo a revolta, esquecida de suas origens generosas, deixa-se contaminar pelo ressentimento, ela nega a vida, correndo para a destruição, fazendo sublevar-se a turba zombeteira de pequenos rebeldes, embriões de escravos, que acabam se oferecendo hoje, em todos os mercados da Europa, a qualquer servidão. Ela não é mais revolta nem revolução, mas rancor e tirania. Então, quando a revolução, em nome do poder e da história, torna-se esta mecânica assassina e desmedida, uma nova revolta é consagrada, em nome da moderação e da vida. Estamos neste extremo. No fim destas trevas, é inevitável, no entanto, uma luz, que já se adivinha - basta lutar para que ela exista. Para além do niilismo, todos nós, em meio aos escombros, preparamos um renascimento. Mas poucos sabem disso.


E já a revolta, na verdade, sem pretender tudo resolver, pode pelo menos tudo enfrentar. A partir deste instante, a luz jorra sobre o próprio movimento da história. Em torno dessa fogueira devoradora, combates e sombras agitam-se por um momento, depois desaparecem, e cegos, tocando suas pálpebras, exclamam que isto é a história. Os homens da Europa, abandonados às sombras desviaram-se do ponto fixo e reluzente. Eles trocam o presente pelo futuro, a humanidade pela ilusão do poder, a miséria dos subúrbios por uma cidade fulgurante, a justiça cotidiana por uma verdadeira terra prometida. Perdem a esperança na liberdade das pessoas e sonham com uma estranha liberdade da espécie; recusam a morte solitária e chamam de imortalidade uma prodigiosa agonia coletiva. Não acreditam mais naquilo que existe, no mundo e no homem vivo; o segredo da Europa é que ela não ama mais a vida. Os seus cegos acreditaram de modo pueril que amar um único dia da vida equivalia a justificar séculos inteiros de opressão. Por isso, quiseram apagar a alegria do quadro do mundo, adiando-a para mais tarde. A impaciência dos limites, a recusa da vida na duplicidade, o desespero de ser homem levaram-nos, finalmente, a uma desmedida desumana. Ao negarem a justa grandeza da vida, precisaram apostar na sua própria excelência. Na falta de coisa melhor, eles se divinizaram e sua desgraça começou: estes deuses têm olhos vazados. Kaliayev e seus irmãos do mundo inteiro recusam, pelo contrário, a divindade, já que rejeitam o poder ilimitado de matar. Eles escolhem, e nos dão como exemplo, a única regra original em nossos dias: aprender a viver e a morrer e, para ser homem, recusar-se a ser deus.
"
("O Homem Revoltado", trad. Valerie Rumjanek, Record 2010, pg 346-350)



Albert Camus  
7/11/1913 - 4/1/1960