Mostrando postagens com marcador conhecimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conhecimento. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de dezembro de 2013

Epistemologia prática: antes, saiba onde você quer morar

"Não há motivo algum para se conhecer bem um lugar se você não for habitá-lo."

Joseph Brodsky
(Traduzido livremente de "On Grief and Reason: Essays", cap. 1, seção VII, Kindle Edition)

terça-feira, 11 de junho de 2013

Autoconhecimento à grega

"E esse é o prodígio da vida, que qualquer ser humano que presta atenção a si mesmo sabe o que nenhuma ciência sabe, dado que ele sabe quem ele mesmo é, e isso é o que há de mais profundo na sentença grega 'conhece-te a ti mesmo', que há já bastante tempo tem sido compreendida à maneira alemã, relacionada à autoconsciência pura, a quimera do idealismo. Já está mais do que na hora de se tentar entendê-la em grego."

Soren Kierkegaard
(Em "O conceito de angústia", Trad. Álvaro Luiz Montenegro Valls, Editora Vozes 2010, pg 87)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mundus vult decipi... será?

"O interessante sempre é um pouco sinistro."

Thomas Mann
(Em "A Montanha Mágica", Herbert Caro (trad.), Círculo do livro 1952, pg 708)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A bandeira da vida

"Os sábios da Idade Média afirmavam que o tempo era uma ilusão, que seu curso, entre causa e efeito, não passava do produto de um dispositivo dos nossos sentidos, e que o verdadeiro ser das coisas era um presente imutável. Terá passeado à beira-mar aquele doutor que foi o primeiro a conceber esse pensamento, saboreando nos seus lábios a leve amargura da eternidade? Seja como for, repetimos que aqui se falou de liberdades tais como a gente se permite nas férias, de fantasias inspiradas pelo ócio da vida, e das quais o espírito decente se farta tão depressa como um homem forte, do repouso na areia cálida. Criticar os meios e as formas do conhecimento humano, pôr em dúvida a sua validade objetiva, seria absurdo, desprezível e hostil, se tal atitude se baseasse numa outra intenção além da de designar à nossa razão limites que ela não pode transpor sem incorrer em negligência para com suas próprias funções. Devemos a nossa gratidão a um homem como o Sr. Settembrini, por ter tachado a metafísica de o "mal", ao instruir com a intransigência de um pedagogo o jovem cujo destino nos preocupa, e que ele mesmo, em certa ocasião, qualificara acertadamente de "filho enfermiço da vida". E a melhor maneira de honrarmos a memória de determinada pessoa a quem queremos muito é declarar que o sentido, o objetivo, o fim do princípio crítico não devem nem podem ser outros senão a ideia do dever e a lei da vida. Sim, a sabedoria do legislador, traçando criticamente os limites da razão, içou, nesses mesmos limites, a bandeira da vida e proclamou como um dever militar do homem servir sob essa bandeira."

Thomas Mann
(Em "A Montanha Mágica", Herbert Caro (trad.), Círculo do livro 1952, pg 661)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A importância de dar nome aos bois

"Quando se traz ao mundo da consciência ou da superfície algo oculto, conhecemos o seu lugar e assim podemos situá-lo. A classificação - o lugar das coisas - é o primeiro passo para tentar levar a coisa ao seu lugar, isto é, a um conjunto." 

 Roberto DaMatta
(em sua coluna do Estadão de hoje)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O homem, sua natureza, sua filosofia

"O homem é um ser racional e, como tal, recebe da ciência seu adequado alimento e nutrição. Tão estreitos, porém, são os limites do entendimento humano que pouca satisfação pode ser esperada nesse particular, tanto no tocante à extensão quanto à confiabilidade de suas aquisições. Além de um ser racional, o homem é também um ser sociável, mas tampouco pode desfrutar sempre de companhia agradável e divertida, ou continuar a sentir por ela a necessária atração. O homem também é um ser ativo, e é forçado, por essa inclinação e pelas variadas necessidades da vida humana, a dedicar-se aos negócios e ofícios; mas a mente exige algum descanso e não pode corresponder sempre a sua tendência ao trabalho e à diligência. Parece, então, que a natureza estipulou uma espécie mista de vida como a mais adequada aos seres humanos, e secretamente os advertiu a não permitir que nenhuma dessas inclinações se imponha excessivamente, a ponto de incapacitá-los para outras ocupações e entretenimentos. "Satisfaz tua paixão pela ciência", diz ela, "mas cuida para que essa seja uma ciência humana, com direta relevância para a prática e a vida social. O pensamento abstruso e as investigações recônditas são por mim proibidos e severamente castigados com a pensativa tristeza que ensejam, com a infindável incerteza em que serás envolvido e com a fria recepção dedicada a tuas pretensas descobertas, quando comunicadas. Sê um filósofo, mas, em meio a toda tua filosofia, não deixes de ser um homem."

David Hume
(Em "Investigações sobre o Entendimento Humano e sobre os Princípios da Moral", José Oscar de Almeida Marques (trad.), Editora UNESP, 2003 -  Parte I: "Uma Investigação sobre o Entendimento Humano", seção I, parágrafo 6)

sábado, 1 de setembro de 2012

Os mares abertos da verdade

"E alguém que contradiz a si mesmo mil vezes e segue por diversos caminhos, veste inúmeras máscaras e encontra-se sempre sem saída, sem horizonte: é possível que tal pessoa aprenda menos sobre a verdade do que aquele virtuoso Estóico, estabelecido de uma vez por todas em seu próprio lugar? Tais preconceitos encontram-se nos limiares de todas as filosofias correntes: e especialmente o preconceito de que a certeza é melhor que a incerteza e seus mares abertos."

Friedrich Nietzsche
(Traduzido livremente de como citado por Karl Löwith em "Nietzsche's Philosophy of the Eternal Recurrence of the Same", University of California Press, 1997, pg 15)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Os privilégios espirituais

"Todos privilégios do espírito só são pagos com profundo sofrimento"

Soren Kierkegaard
(Traduzido livremente de "Fear and Trembling", In: "Fear and Trembling and The Book on Adler", Alfred Knopf - Everyman's Library, 1994, pg 72)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Quando o que é grátis custa caro

"Vivemos a era do conhecimento. A produção do conhecimento é fundamental para o avanço de qualquer país. E esse tipo de produção tem de ser incentivada, e não minada. As empresas, ou pessoas, que defendem a pirataria online, ou a cópia irrestrita online, estão minando a produção do conhecimento nos seus respectivos países. Da mesma forma que não existe o milagre da multiplicação dos peixes, não existe o milagre da multiplicação do conhecimento. Sua produção exige formação, trabalho, investimento, e tudo isso tem de ser remunerado. Ninguém imagina que uma pessoa possa entrar numa livraria, pegar uma dúzia de livros e sair sem pagar. Mas algumas pessoas argumentam que na internet você pode e deve fazer isso."


Roberto Faith
(Em entrevista ao Estadão nesta última sexta-feira)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O que realmente importa

"O que eu realmente preciso é de ser claro sobre o que devo fazer, não sobre o que devo conhecer - exceto na medida em que o conhecimento precede toda ação. Trata-se aqui de entender o meu destino, de compreender o que a divindade realmente quer de mim; trata-se de encontrar uma verdade que seja verdade para mim, encontrar uma ideia pela qual estou disposto a viver e a morrer. E a que serviria se eu descobrisse alguma - assim dita - verdade objetiva? Ou se eu percorresse os sistemas dos filósofos e fosse capaz de apontar inconsistências em cada particular vírgula? E qual seria o uso de desenvolver uma teoria do estado, e colocar todas partes de tantos distintos lugares em um único todo, construir um mundo que, novamente, eu mesmo não o habitasse, mas meramente o erguesse para que os outros pudessem vê-lo? A que serviria ser capaz de propor o significado da cristandade, explicar muitos fatos separados, se isto não tivesse um significado mais profundo para mim e para a minha vida? Certamente não negarei que ainda aceito o imperativo do conhecimento, e que se pode também ser influenciado por ele, mas ele deve ser tomado e tornado vivo em mim, e isto é o que eu agora vejo como o ponto principal. (...) Porém para encontrar esta ideia, ou, mais propriamente, para encontrar a mim mesmo, de nada serviria jogar-me ainda mais no mundo. É isto que não percebi nestes anos, ao levar uma vida completamente humana, não apenas uma vida de conhecimento, evitando basear meu desenvolvimento somente em - sim, em algo que as pessoas chamam de objetivo - algo que no fim não é meu propriamente, mas tentando baseá-lo também em algo que estaria emaranhado com as mais profundas raízes da minha existência, algo através do qual seria como se permeado do divino e ao qual me agarraria mesmo se o mundo inteiro fosse acabar. (...) Isto, veja, é isto o que eu preciso e pelo qual anseio, é uma ação interna do homem, este lado divino do homem, que realmente importa, e não simplesmente um montante de informação. Pois em vão busquei uma âncora externa, não só nas profundezas do conhecimento, mas também no mar sem fim do prazer. O que encontrei? Não o meu "eu", pois isso era o que queria encontrar. (...) Antes de qualquer coisa deve-se aprender a conhecer a si mesmo. E com relação à rotina ordinária dos homens, não ganhei nem perdi nada. Meus amigos exerceram, com poucas exceções, nenhuma influência marcante em mim. E então vejo-me mais uma vez no ponto de partida, onde devo começar tudo novamente. Agora resta-me voltar calmamente para mim mesmo e começar a agir internamente; pois somente deste modo serei capaz de chamar-me "eu" em um sentido profundo. (...) Então que os dados sejam lançados - estou atravessando o Rubicão! Esta estrada sem dúvida levar-me-á à batalha, mas não desistirei jamais!"

O jovem Soren Kierkegaard, escrevendo em seu diário, aos 22 anos.
(Traduzido livremente de passagem de "Papers and Journals", 1 Agosto de 1835, como citado por John Caputo em "How to read Kierkegaard", WWNorton, 2008, pgs 9-10)


sábado, 12 de maio de 2012

O Valor do humano

"O ser humano é apenas uma gramínea. Mas uma gramínea pensante. O universo não tem nenhuma necessidade de pegar em armas e destruí-lo: um vapor, uma gota d'água é suficiente para matá-lo. E, apesar de tudo, se o universo fosse de fato destruí-lo, o ser humano anda assim seria mais nobre que seu assassino, pois ele é consciente da sua morte, bem como da vantagem que o universo tem sobre ele. Enquanto que o universo disso nada sabe."

Blaise Pascal
(Traduzido livremente de "Pensèes", A. J.Krailsheimer (tradutor do alemão), Harmondsworth, 1966; pg 136)

sexta-feira, 23 de março de 2012

O conhecimento da medida

"Você nunca sabe o que é suficiente sem conhecer o que é mais que suficiente."
 ("You never know what is enough unless you know what is more than enough")

William Blake
(Traduzido livremente de "The Marriage of Heaven and Hell", em "Works of William Blake", Kindle edition, Kindle location: 1563)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sabedoria Moral

"Um profundo paradoxo da filosofia moral é a associação, por parte de quase todos os filósofos, da bondade com o conhecimento, com a sabedoria: mostrar tal relação em um nível de detalhe, mostrar a "realidade" como "una", parece envolver uma prejuízo despropositado de alguns aspectos morais. Uma percepção aguda desta dificuldade levou alguns filósofos contemporâneos a tratar de modo axiomático o naturalismo como um falácia. Mas eu gostaria de sugerir que, para o senso comum e na ordinária, não-filosófica, reflexão sobre a natureza da moral, é perfeitamente óbvio que a bondade é conectada com conhecimento: porém, não com o conhecimento impessoal, quase-científico, do mundo - seja lá o que isto for - mas com uma percepção refinada, honesta da verdade, com um justo e paciente discernimento e uma cuidadosa exploração daquilo com que se confronta, algo que é resultado não de um simples "abrir os olhos", mas de um tipo particular e certamente familiar de disciplina moral." 

Iris Murdoch
(Traduzido livremente de 'The Sovereignty of Good', Routledge 2009, pg 37)

sábado, 29 de outubro de 2011

Nostalgia Intelectual

Dois excertos do diário de Jean-Paul Sartre durante a segunda guerra mundial ("Diario de uma Guerra Estranha", trad. Aulyde Soares Rodrigues, Nova Fronteira, 2nd ed., 2005):


Quarta-feira, 29 de novembro de 1939 (Caderno III)

"Desde 2 de setembro, li ou reli:

O castelo, de Kafka
O processo, de Kafka
A colônia penal, de Kafka
Journal, de Dabit
Journal, de Gide
Journal, de Green
Les Enfants du limon, de Queneau
Un rude hiver, de Queneau
Mars ou la guerre jugée, de Alain
Prélude à Verdun, de Romains
Verdun, de Romains
Quarante-huit, de Cassou
La Cavalière Elsa, de Mac Orlan
O coronel Jack, de Defoe
Segundo volume das obras de Shakespeare (Pléiade)
Terra dos homems, St. Exupéry
Un testament espagnol, de Koestler"


Terça-feira, 19 de dezembro de 1939 (Caderno V)

"Li - desde o último recenseamento das minhas leituras:

Mac Orlan: Sous la lumière froide
Paul Morand: Ouvert la nuit
Marivaux: Théâtre choisi
Mérimée: Mosaïque
Mérimée: Colomba
Flaubert: A educação sentimental
Kierkegaard: Le concept d'angoisse
Dorgelès: Les Croix de bois"



[Progredimos nesses 70 anos! A vida é tão mais fácil! Hoje basta ler meia dúzia de livros e está-se já autorizado a vestir a carapuça de "intelectual".]