sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Nascidos do Espanto

"O que eu digo é que o poema nasce de alguma coisa que me espanta, que me surpreende. Não adianta eu decidir que vou escrever um poema, não é assim. Eu sou surpreendido por alguma coisa que acontece, e essa coisa me põe num estado em que eu sou capaz de escrever o poema e fora desse estado eu não sou capaz de escrever, eu tenho que entrar nesse estado. E esse estado é provocado por um acaso, por uma coisa eventual, seja o que for: o osso da minha perna bate num outro osso e eu me espanto e começo a raciocinar sobre isso e a querer expressar essa descoberta de que eu tenho um osso dentro de mim. E assim é tudo. Todos os meus poemas nascem do espanto."

Ferreira Gullar
(Em entrevista à Zero Hora)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A zona escura

"Por trás dos homens está a grande máquina das classes que avançam, a máquina impulsionada dos pequenos gestos cotidianos, a máquina onde outros gestos queimam sem deixar traços: a história. Tudo deve ser lógico, tudo deve ser entendido, na história como nas cabeças dos homens: mas entre uma e as outras há um salto, uma zona escura na qual as razões coletivas fazem-se razões individuais, com desvios monstruosos e conexões impensáveis."

Italo Calvino
(Traduzido livremente de "Il sentiero dei nidi di ragno", Mondatori 2006, pg 107)


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Agir moral

"A ação é o ponteiro da balança. Não devemos tocar no ponteiro, somente nos pesos que o governam."

Simone Weil
(Traduzido livemente de "Gravity and Grace", Emma Crawford (trad.), Routledge 2002, pg 49)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Um argumento em favor do acesso direto

"Se dou a alguém a seguinte ordem 'traga-me uma flor vermelha daquele campo', como ele irá saber que tipo de flor trazer se eu apenas forneci uma palavra? Alguém pode sugerir que ele sai em procura da flor vermelha carregando uma imagem de vermelho na sua mente e comparando-a com as flores ao redor para ver qual delas tem a cor da imagem. (...) Mas esta não é a única maneira de procurar e não é a maneira usual. Nós vamos, olhamos ao redor, caminhamos até alguma e colhemos a flor, sem compará-la a nada. Para ver que o processo de obedecer àquela ordem pode ser deste tipo, considere agora a seguinte ordem: 'imagine uma área vermelha'. Você não estará tentado neste caso a supor que antes de obedecer à ordem você deve ter imaginado uma área vermelha para servir de modelo para o vermelho que você foi ordenado a imaginar."

Ludwig Wittgenstein
(Traduzido livremente de 'The Blue Book', Harper 1960, pg 3)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Motivos para morrer

"Era difícil ser fiel a Cristo. Requeria-se uma fidelidade baseada em nada. Muito mais fácil era ser fiel a Napoleão, mesmo quando isto implicava em morte. E a lealdade era também mais fácil para os mártires cristãos depois de Cristo, porque a Igreja já estava lá, uma força com promessas temporais. Morremos por aquilo que é forte, não por aquilo que é fraco; ou então por aquilo que é fraco momentaneamente mas ainda mantém uma áurea de força. A lealdade a Napoleão em Santa Helena não é uma lealdade ancorada no vazio. Morrer por aquilo que é forte furta da morte sua amargura - e ao mesmo tempo todo o seu valor."

Simone Weil
(Traduzido livemente de "Gravity and Grace", Emma Crawford (trad.), Routledge 2002, pg 24)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

The true art is pointless

"O despropósito da arte, sua ausência de sentido, não é como o despropósito de um jogo; é o despropósito da própria vida humana, e a forma na arte é propriamente a simulação da ausência de sentido do universo".

Iris Murdoch
(Traduzido livremente de 'The Sovereignty of Good', Routledge 2009, pg 84)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Uma (curta) refutação de longos argumentos

"Dizer que o mundo não vale nada, que a vida é sem valor, e usar como prova o mal que há no mundo é um absurdo, pois se estas coisas não valem nada, o que o mal tira de nós?"

Simone Weil
(Traduzido livemente de "Gravity and Grace", Emma Crawford (trad.), Routledge 2002, pg 84)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ilusão de liberdade

"A liberdade é, eu acho, um conceito composto. A sua parte verdadeira é simplesmente um nome para um aspecto da virtude relacionada de modo particular com a clarificação da visão e a dominação de qualquer impulso egoísta. A parte falsa e mais popular é um nome para os movimentos auto-assertivos da vontade egoísta e iludida que, por nossa total ignorância, é tomada como sendo autônoma."

Iris Murdoch
(Traduzido livremente de 'The Sovereignty of Good', Routledge 2009, pg 97)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Bem e o Fim

"O bem não tem nada a ver com propósito, finalidade, de fato ele exclui qualquer idéia de finalidade. 'Tudo é vaidade' é o início e o fim da ética. O único modo genuíno de ser bom é ser bom 'por nada', no meio de uma cena em que toda coisa 'natural', incluindo nossa própria mente, é sujeita ao acaso, isto é, à necessidade". 

Iris Murdoch
(Traduzido livremente de 'The Sovereignty of Good', Routledge 2009, pg 69)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Inimigo

"O maior inimigo da excelência moral (e também artística) é a fantasia pessoal: o tecido de auto-engrandecimento, desejos consoladores e sonhos que previne a visão clara do que está lá fora."

Iris Murdoch
(Traduzido livremente de 'The Sovereignty of Good', Routledge 2009, pg 57)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Saber estudar (é saber viver)

"A 'techné' que Platão pensou ser a mais importante era a matemática, porque era a mais rigorosa e abstrata. Eu tomarei um exemplo de uma 'techné' mais próxima de mim: aprender uma língua. Se estou aprendendo, por exemplo, Russo, sou confrontada com uma estrutura de autoridade que me impõe respeito. A tarefa é difícil e o objetivo é distante e talvez nunca completamente atingível. Meu trabalho é uma revelação progressiva de algo que existe independentemente de mim. A atenção é recompensada pelo conhecimento da realidade. O amor do idioma leva-me para longe de mim mesmo, em direção a algo estranho, algo que minha consciência não é capaz de dominar, engolir, negar ou dissolver. A honestidade e humildade requerida do estudante - não pretender conhecer o que não conhece - é a preparação para a honestidade e humildade do acadêmico que nem mesmo sente a tentação de suprimir os fatos que são contrários a sua teoria. É claro que a techné pode ser mal usada; um cientista pode até sentir que deve abandonar sua área de pesquisa se souber que suas descobertas seriam usadas para o mau. Mas excetuando-se estes contextos especiais, estudar é normalmente um exercício de virtude assim como de talento, e mostra-nos um modo fundamental através do qual a virtude está relacionada com o mundo."

Iris Murdoch
(Traduzido livremente de 'The Sovereignty of Good', Routledge 2009, pg87)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Ego



"Existe algo sobre você que você não sabe. Algo que você vai negar que exista, até que seja tarde demais para fazer alguma coisa a respeito. É a única razão pela qual você se levanta de manhã. A única razão que faz você sofrer pelo péssimo patrão, a razão pela qual você derrama o sangue, o suor, as lágrimas. É porque você quer que as pessoas saibam quão bom, atraente, generoso, engraçado, selvagem e inteligente você realmente é. Temam-me ou venerem-me, mas, por favor, achem que eu sou especial! Partilhamos todos de um mesmo vício. Nós somos lixos drogados! Estamos todos na mesma, esperando o tapinha nas costas, o relógio de ouro, hip, hip, hoo-fucking-rah! Olha o menino esperto com o crachá, polindo seu troféu. Shine, you crazy diamond ... porque nós somos apenas um bando de macacos envoltos em ternos, implorando pela aprovação dos outros!"


Do filme "Revolver" (2005) de Guy Ritchie.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O problema da filosofia

"A filosofia trata, frequentemente, do problema de encontrar o modo e a situação ideais para se dizer o óbvio."

Iris Murdoch

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A questão

"Na filosofia, é muito difícil dizer se alguém está proferindo algo razoavelmente objetivo e público, ou se está somente erguendo uma barreira, cara ao seu próprio temperamento, contra seus próprios medos. (É sempre uma questão significativa a respeito de qualquer filósofo: 'do que ele tem medo?')."

Iris Murdoch
(Traduzido livremente de 'The Sovereignty of Good', Routledge 2009, pg 71)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sabedoria Moral

"Um profundo paradoxo da filosofia moral é a associação, por parte de quase todos os filósofos, da bondade com o conhecimento, com a sabedoria: mostrar tal relação em um nível de detalhe, mostrar a "realidade" como "una", parece envolver uma prejuízo despropositado de alguns aspectos morais. Uma percepção aguda desta dificuldade levou alguns filósofos contemporâneos a tratar de modo axiomático o naturalismo como um falácia. Mas eu gostaria de sugerir que, para o senso comum e na ordinária, não-filosófica, reflexão sobre a natureza da moral, é perfeitamente óbvio que a bondade é conectada com conhecimento: porém, não com o conhecimento impessoal, quase-científico, do mundo - seja lá o que isto for - mas com uma percepção refinada, honesta da verdade, com um justo e paciente discernimento e uma cuidadosa exploração daquilo com que se confronta, algo que é resultado não de um simples "abrir os olhos", mas de um tipo particular e certamente familiar de disciplina moral." 

Iris Murdoch
(Traduzido livremente de 'The Sovereignty of Good', Routledge 2009, pg 37)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Fim

"Vai virar ruína. Porque tudo está em ruínas. Tudo degradou-se. Mas eu não diria que se arruinou e deteriorou-se a esse ponto. Porque isso não é nenhum cataclismo, provocado pela assim chamada inocente ajuda humana. Pelo contrário, é sobre o próprio julgamento do homem, seu próprio julgamento sobre si mesmo, no qual certamente Deus está envolvido, ou, atrevo-me a dizer, tem um papel ativo. E qualquer coisa em que ele participe ativamente é a mais horripilante criação que você possa imaginar. Porque, veja você, o mundo degradou-se. Então não interessa o que eu digo, tudo degradou-se a tal ponto que eles adquiriram. E, como eles adquiriram tudo de maneira encoberta, furtiva, degradaram tudo. Porque qualquer coisa em que eles põem a mão - e eles tocam em tudo - eles degradam. Assim foi até a vitória final. Até o triunfo total. Adquirir, degradar. Degradar, adquirir. Ou, posto de maneira diferente, se você preferir: pôr as mãos, degradar e finalmente adquirir; ou pôr as mãos, adquirir e finalmente degradar. Tem sido assim há séculos. Isso, e somente isso, algumas vezes matreiramente, outras rudemente, às vezes delicadamente, às vezes violentamente, é o que vem acontecendo. E por fim de uma única maneira, como um ataque de ratos em uma emboscada. Porque para essa vitória perfeita, também foi essencial que o outro lado, pensando que tudo estava excelente, grandioso e nobre, não se engajasse em nenhum tipo de embate. Não deveria haver luta de espécie alguma, somente o rápido desaparecimento de um dos lados, o desaparecimento da excelência, da grandiosidade, da nobreza. De forma que agora os vencedores, que armaram a emboscada, regem a Terra, e não existe canto algum onde alguém possa esconder-se deles, pois tudo em que eles conseguem pôr as mãos é deles. Até mesmo coisas que achamos que eles não alcançam - e eles alcançam - também é deles. Porque o céu já é deles, e todos os nossos sonhos. Deles é o momento, a natureza, o silêncio infinito. Até a imortalidade é deles, entendeu? Tudo, tudo está perdido para sempre! E todas aquelas pessoas nobres, excelentes pessoas, simplesmente não interferiram, se assim posso colocar. Eles pararam neste ponto, e tinham que entender, e tinham que aceitar, que não há Deus nem santos. E os excelentes, os grandes, os nobres tinham que entender e aceitar isto desde o princípio. Com certeza foram incapazes de entender isso. Eles acreditaram e aceitaram, mas não entenderam. Ficaram somente perplexos, resignados, até que algo - um brilho do espírito - finalmente os iluminasse. E de repente eles perceberam que não há Deus nem santos. E também que não há nem o bem nem o mal. Então eles viram e entenderam que se assim fosse eles também não existiam! Acho que esse pode ter sido o momento em que podemos dizer que os excelentes foram extintos, desvaneceram-se. Extintos e apagados, como a fogueira deixada para se apagar no campo. Um o perdedor constante, o outro sempre vencedor. Derrota, vitória; derrota, vitória. E um dia - por aqui mesmo - dei-me conta, realmente percebi que estava enganado quando pensei que nunca houvera e nem poderia haver qualquer tipo de mudança aqui na Terra. Porque, acredite-me, eu sei agora que essa mudança realmente aconteceu. "


Do filme de Bellá Tarr, "A Tórino Ló" ("O Cavalo de Turim"), 2011.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O Arquipélago

"Uma família é como um arquipélago, todos partes do mesmo todo, mas ainda assim ilhas separadas e sozinhas, lentamente se afastando uns dos outros."

Do filme de Alexander Payne, "The Descendants" (2011).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Irredutibilidade da consciência

"A consciência não é redutível da mesma forma que outros fenômenos são redutíveis, não porque aquela envolve algo de especial, mas porque a redução destes fenômenos depende em parte da distinção entre "realidades objetivas" de uma parte e meras "aparências subjetivas" de outra parte; e reduzir é eliminar as aparências dos fenômenos. Mas no caso da consciência, sua realidade é a aparência; portanto, a razão para a redução é perdida se tentarmos simplesmente ignorar aparências e definir consciência em termos de alguma realidade física subjacente."

John Searle
(Traduzido livremente de "Reductionism and the Irreductibility of Consciousness", em: "Emergence", Humphreys, P. and Bedau, M. (editores), MIT Press 2008, pg 76)

domingo, 8 de janeiro de 2012

Infelicidade mútua

"Quando estamos infelizes sentimos mais fortemente a infelicidade dos outros; o sentimento não se esfacela, mas sim concentra-se..."

Fiodor Dostoiévski
(Em "Noites Brancas", trad. Nivaldo dos Santos, Editora 34, 2005, pg. 58)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Desabafo de um sonhador

"Nesses momentos já começa a me parecer que nunca serei capaz de começar a viver uma vida autêntica; porque já me parecia que eu tinha perdido todo o tato, toda a noção do autêntico, do real; porque, enfim, eu maldizia a mim mesmo; porque depois de minhas noites fantásticas sou logo tomado por terríveis momentos de desilusão! Entretanto, sente-se que ao redor gira e ressoa uma multidão de pessoas no turbilhão da vida; sente-se, vê-se como as pessoas vivem: vivem de verdade; vê-se que a vida para elas não é proibida, que a vida delas não se dissipa como um sonho, como uma visão; que a vida delas se renova eternamente, é eternamente jovem, e que nenhuma de suas horas se assemelha a outra, ao passo que é triste e monótona até à vulgaridade a fantasia tímida, escrava de uma sobra, de uma ideia, escrava da primeira nuvem que cobrir de repente o solo e oprimir de tristeza o autêntico coração petersburguense, que tanto aprecia o solo - e que fantasia pode haver na tristeza! Sente-se que ela, essa fantasia inesgotável, finalmente se cansa, enfraquece numa tensão eterna, pois você amadurece, abandona seus antigos ideais: estes se desfazem em pó, em pedaços; se não há outra vida, então é preciso construí-la a partir desses pedaços."

Fiodor Dostoiévski
(Em "Noites Brancas", trad. Nivaldo dos Santos, Editora 34, 2005, pg. 42-43)